11 dezembro 2009

Um grande bluff ou a "ciência" do nada: os estudos do género

A moda pegou nos anos 80 e 90, galgou alto, invadiu universidades e não há quem a consiga impugnar. É uma nova ciência e dá pelo nome de "estudos do género": umas pitadas de sociologice, mais uns grãos de antropologia, salpicos de teologia, borrifos de história da literatura, mais uns grãos de estudos jurídicos e temos um enorme continente. São corredores de biblioteca com obras a trepar até ao tecto, um imperialismo que se vai aboletando nas tradicionais áreas do saber, estilhaçando-lhes a funcionalidade orgânica, misturando tudo e subvertendo a segurança que é arrimo para a cultura.


Hoje passei pela biblioteca da universidade e percorri, abismado, a expansão da nova peste bubónica. Tanto inclinei para a esquerda e para a direita o pescoço, lendo lombadas e puxando sem critério obras que quase fiquei com um torcicolo: A Cultural History of the Fart, Gender and Aging in Mesopotamia, Ancient Maya Women: Gender and Archaeology, Moon, Sun, and Witches: Gender Ideologies and Class in Inca and Colonial Peru, The Essential Body: Mesopotamian Conceptions of the Gendered Body, Poetic Promiscuity in Mesopotamian Ritual, The African Wife of Moses, Mapping Feminist Biblical Criticism, The Book of Ruth and the Possibility of a Feminist Canonical Hermeneutic, A Feminist Approach to the Book of Job, Jesus and Divorce, The Hidden Heroes of the Gospels: Female Counterparts of Jesus, Christ's Birth of a Virgin who Became a Wife, Power Through Bedouin Women, Menstruation and the Power of Yurok Women, The Undeclared War Against American Women, Cooking, Cuisine, and Class, Women's Utopias in British and American Fiction, Where no Man has Gone Before: Women and Science Fiction, Menopause and Culture, The Prison as Gendered Organization.


Depois, atentei nas secções, que subentendi corresponderem às grandes áreas dessa admirável ciência nova: Women's Studies, Lesbian, Bisexual and Transgender Studies, Man’s Studies. Em cada "área de conhecimento", as subdivisões convidaram-me para o mundo espantoso de tudo quanto desconhecia. Nas trinta prateleiras encabeçadas por um orgulhoso "Feminist Studies", identifiquei: Feminist Theory, Gender Relations, Gender and International Law, African Women's Studies, Jewish Women's Studies, Women's Spirituality, Feminist Theology, Feminist Aesthetics, Caribbean feminisms, Women, Development and Administration, Post-colonial feminisms, Critical sexualities, Ecofeminism, Feminist Theory of the State.


Era a ponta do iceberg, pois para cada ramo de "saber" havia reverdescências de fazer espantar um tolo como eu: Reproductive rights, Sexual and domestic violence against women, Holocaust studies on gender, Feminism and film, The Renaissance body, Sexuality and creative writing, Gender, power and politics in Europe, Gender, culture and identity, Gender in the workplace, Gender and education, Gender and reproductive rights, Gender and social anthropology.


A coisa dá milhões. Contam-se pelas centenas os doutoramentos, mestrados, licenciaturas, pós-graduações e cursos de especialização da coisa. Funciona, rende e tem o apoio de grandes e nobres instituições e fundações que vergam servilmente a cerviz perante o novo ídolo. Regressei a casa e percorri, por curiosidade, alguns sítios web destes cursilhos da parvalhização. Parece que a América se quer vingar do Ocidente, onde ocupa um lugar menoríssimo, marginal e quase risível. As excepções, aplaudo-as até me sangrarem as mãos.

Num desses sítios web, definia-se sem ocultações o propósito desta "ciência": "Our mission is to place women at the centre of inter-disciplinary teaching and research about power relations, and to foster knowledge to transform these relations to the benefit of women". Ou seja, não é nem se considera a coisa que um movimento [político], fundado numa ideologia ranhosa que teve a sua piada como marginália para-literária com Simone de Beauvoir e depois, como a folha, caíu murcha e irreprodutível. É uma declaração de guerra à Universidade, uma caricatura de saber e um perigo que, a expandir-se, vai permitir atirar para o fogo tudo o que não compaginar com esse monstro cego. Sem dúvida, uma das maiores trapaças da história da cultura.Les sanglots longs des violons de l'automne blessent mon cœur d'une langueur monotone.Estamos a assistir à morte de tudo o que respeitavamos.



Charles Trenet: Verlaine

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

E por cá também já vemos a mesma coisa que bem depressa evoluiu de obras do estilo "O Movimento Colectivo das Cardadeiras de Banholas em 1383-85", até ao "Fluxo Intergeracional do Comércio da Bolota", ou ainda, "O Associativismo Mesteiral na Consciencialização Proletária da Mulher nas Descobertas".
Nada de novo: umas gajas de calças de ganga coçadas, borbulhas, sempre de cigarro na boca e estranhamente parecidas - em tudo - com o Ary dos Santos. Bah...

Gi disse...

Não esqueçam que os "estudos de género" começaram como reacção à falta de visibilidade das mulheres nas histórias, normalmente escritas e estudadas sob uma perspectiva masculina.

Quem se lembrou de tentar saber como viviam as mulheres e como reagiam teve um trabalho pioneiro, e asseguro-vos que na área que me interessa (o último século da antiga república Romana) há questões muito interessantes.

Depois há, obviamente, toda a pressão para se escreverem teses, artigos e mesmo livros, que leva ao aparecimento de textos perfeitamente irrelevantes ou absolutamente idiotas.