31 dezembro 2009

A retranca e a esperança


O fim de ano já passou. Aqui em Banguecoque o relógio acaba de soar a uma da manhã e é hora de me deitar. A partir de uma certa idade parece perder-se, definitivamente, a sensação do novo, do nunca antes experimentado, do imprevisto; tudo ou quase tudo soa a repetição. Esta sensação é aparente, pois na vida tudo acontece até ao derradeiro grão de tempo. Contudo, se o calendário não passa de uma medida de contagem da sucessão de acontecimentos, o tempo, ora entendido circularmente enquanto eterna recorrência, como os indianos ou os gregos o pensavam, ora linearmente como uma seta projectada no vazio do não-tempo, como o pensam os cristãos do Homem da Revelação, é eminentemente subjectivo, isto é, interpela e desafia cada homem. O tempo circular exige renovação, banho lustral e regresso à pureza, às fontes e aos mananciais profundos que animam a vida. Pede a cada um, nas palavras do Solitário de Röcken, que viva na esplendorosa mansão da natureza, que seja feliz e não perca um minuto da vida, pois o tempo de cada um é escasso e marcha no contra-relógio da biologia. O tempo linear requer sonho, requer obra e caminho jamais percorrido.

Infelizmente, as pessoas, esmagadas pelo calendário, não se dão conta que o tempo - qualquer que seja o entendimento que dele se possa ter - é, sempre, para indianos e gregos, como para os cristãos, finito, pois para voltar atrás ou avançar nutre-se daquilo que cada um pode oferecer à vida para lhe dar significado. As pessoas comuns resistem infantilmente à passagem do tempo construindo castelos de areia para deter o oceano. Nesse inglório esforço, estão condenadas, sempre, ao fatal desenlace. A atitude mais comum é a de remoer o passado, roendo as unhas do estômago, encontrar justificações para não se limparem ou não saltarem em frente. A "retranca" mina, assim, a renovação da vida ou a aventura do desconhecido. A retranca nutre-se do ódio, da inveja, da justificação, vive escravizada ao pequeno mundo fechado de cada um, às experiências negativas, à culpabilização do próximo pela infelicidade em que se vive. O homem da retranca não consegue sair da prisão, não se pode auto-determinar porque não é livre.

Ouvi hoje, pela tardinha, um monge budista discretear sobre a aventura da heroicidade individual. Fazer o bem é, dizia, acumular mérito, fazer por si fazendo bem aos outros. Deixar obra, quer dizer: deixar algo que possa servir a felicidade dos outros. Por coincidência, seguiu-se-lhe um sacerdote de uma religião revelada, que disse essencialmente o mesmo.

No fundo, o calendário é perpétuo. Está fora das coisas e da consciência e podemos saber se o dia 22 de Abril de 3700 será uma quinta-feira ou um sábado. Já o mesmo não se pode dizer do tempo, que é aquilo que cada um quiser.

2 comentários:

joserui disse...

Desejo-lhe um bom 2010. -- JRF

adsensum disse...

Feliz Novo Ano, Miguel.