15 dezembro 2009

Quando morre uma biblioteca

Evitei por lá passar após a comoção do dia do incêndio. Adiei, encontrei todas as desculpas e justificações, entretive-me com outros trabalhos. Hoje tinha de ser. Dois livros requisitados cujo prazo expirara obrigaram-me a ver o que não queria ver. Fui à Siam Society e saí doente. Quase um mês após a tragédia, o edifício fervilha de actividade. Os funcionários, agora sentados em cadeiras de plástico tentam contrariar a fatalidade que sobre a cultura tailandesa se abateu. Uns limpam encadernações, outros vão abrindo as páginas enxarcadas, secando-as uma a uma. Outros, ainda, tentam dar ordem a cem anos de arquivo que o fogo caprichosamente lambeu mas não consumiu. À saída, um prospecto pedindo apoio e solicitando a amigos e sócios estrangeiros da instituição que façam chegar aos seus países de origem o pedido de socorro.
Não sei o que posso fazer. Não tenho amigos influentes, não tenho acesso aos gabinetes ministeriais e não tenho senão a reconfortante e inútil capacidade de dar na proporção dos meus modestos meios. Aqui fica o apelo para quem com esta estimável e lutadora gente queira salvar dezenas de milhares de obras daquela que foi, até 20 de Novembro, uma das mais importantes bibliotecas especializadas sobre o Sudeste Asiático. Ali está, também, o rasto que Portugal deixou por estas paragens ao longo de meio milénio. Se todas as bibliotecas e livros do mundo ardessem, voltaríamos decerto às trevas. Salvar um livro é salvar aquilo que impede a queda da humanidade na animalidade.


Wagner: Idílio de Siegfried. London Philharmonic Orchestra (1938)

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