13 fevereiro 2014

Os queijinhos


Alguém terá ficado indignado por ontem aqui me ter referido a "sociologices". Interroga-me o estimado "cientista social" se eu sei o que é a Sociologia. Sei, de gingeira, pois entre sociólogos passei dois anos a fazer inutilíssimo trabalho que partiu do nada e chegou a parte alguma. Posso dizê-lo sem vacilações: foram os mais estúpidos e perdidos anos da minha vida escolar a fazer inquéritos abstrusos sobre saneamento básico, consumo de "bens culturais", despesas de transporte e outras relevâncias, tudo bem regado de queijinhos estatísticos, níveis de mensuração, correlações, factores de análise, variantes e diabo a quatro. No fundo, o paradigma dessa Sociologia funda-se numa crendice positivista que trata de tudo reduzir a números, uma espécie de pitagorismo de segundo grau, o que para mim não passa de Mó Dúu*. Uma fulana minha conhecida conseguiu a proeza de fazer uma tese de 300 páginas inteiramente preenchida com queijinhos, sem uma ideia, sem uma linha; uma desgraça, pois sendo um trabalho de humanidades, tresandava a tecnolatria da mais baixa. Outra, fazia uns mostrengos sobre História da Edição em Portugal só com queijos: de cabra, amanteigados, Serra e das Ilhas. Era um verdadeiro festim digno de Feira do Queijo. Sobre o conteúdo das edições, sobre es editores, nada.
Já por várias vezes respirei fundo e tentei concentrar-me nesses enormes cartapácios de Boaventura e e deles não retirei proveito algum. É o velho albergue espanhol: nas estatísticas e nos queijinhos podemos ver tudo, consoante a cor das lentes dos óculos. Há tempos, um "sociólogo" venezuelano queria impor-me o "facto" - outra inutilidade - dos EUA não serem um país desenvolvido, bombardeando-me com dados estatísticos e queijinhos. A Venezuela sim, era um país desenvolvido, pois os "índices", o "crescimento" e níveis estatísticos ali estavam para o provar.

Para pessoas absolutamente incapazes de percepcionar factores intangíveis, a Sociologice é um bom aconchego. É evidente que no nível estratosférico da Sociologia há pensamento. Simmel e a sua Sociologia do Dinheiro, Weber e os monumentais estudos de sociologia das religiões, Ostrogorsky e os inquéritos sobre a democracia e a organização dos partidos políticos devem fazer parte do curriculum de qualquer leitor. O resto, bá, são queijinhos. Essa sociologice está para a sociedade como certa "filosofia" para pessoas incultas: nada sabem de história, nunca leram um romance, desconhecem em absoluto a arte, não sabem situar um local no mapa, mas falam de tudo com sobranceira autoridade; em suma, coisas de Mó Dúu.
Há uns anos, a filha de uma colega de trabalho veio-me dizer, ufana, que estava a tirar Sociologia na Nova. "Estamos a trabalhar sobre temas da exclusão, disse-me como se fosse um pequeno deus corrector das misérias do mundo. Apeteceu-me dizer: "ó filha, vai ao primeiro alfarrabista nas escadinhas do Duque, compra por atacado os livros da Campanha de Educação de Adultos e saberás muito mais sobre Portugal e os portugueses". Com a bolonhesa em acção, já deve ser doutoranda. Mais uma deputada !

* Mó Dúu: arte adivinhatória tailandesa. Os seus oficiantes fazem-se passar por "doutores" (Mó) que vêem aquilo que os outros - os clientes - não conseguem lobrigar.

3 comentários:

Bic Laranja disse...

Certeiro.

Flávio Gonçalves disse...

E uma análise aos psicólogos?

Jorge Bravo disse...

Mo muito bem dito! ;-)