17 dezembro 2009

O puzzle da História Desconhecida dos Portugueses na Ásia


Já tinha visto a bandeira reproduzida em velhas gravuras britânicas do século XIX, mas confesso não me ter despertado curiosidade, pensando não passar de mera liberdade criativa dos ilustradores. Há dias, porém, encontrei numas memórias da última campanha militar inglesa no norte da Birmânia (1885) a fotografia de estandartes capturados nos dias que precederam a queda de Mandalay, última morada da dinastia Konbaung. Lá esta ela, a enigmática bandeira, no chão juncado com outros troféus: uma cruz negra sobre campo vermelho.


Aquela não era, certamente, a bandeira dos reis da dinastia, mas um estandarte militar. Só podia ter a ver com a existência de cristãos nas hostes reais de Mindon e Thibaw. Hoje, ao consultar o melhor sítio web dedicado a vexilologia lá a encontrei, com a seguinte nota de rodapé: "the flag shown here is the standard of the royal artillery who were mainly Christian Portuguese descendants". Depois, bastou compará-la com a bandeira da Ordem Franciscana e lá estava, sem confusão, o símbolo. Como foram os Franciscanos portugueses os primeiros a fixar-se na Birmânia (1660), aquela bandeira era, só podia ser, empunhada por católicos portugueses.

Os artilheiros e sapadores portugueses-birmaneses tiveram longa e respeitada carreira nos exércitos das dinastias Taungoo e Konbaung, resistiram ao passar dos séculos e combateram siameses, malaios, franceses e holandeses, até serem destroçados pelos exércitos britânicos. Nos derradeiros dias de Mandalay, foram a última defesa militar moderna contra os expedicionários do general Prendergast.

O puzzle vai-se fazendo, peça a peça. É fascinante assistir à progressiva definição do nome de Portugal emergindo do quebra-cabeças da investigação. Tudo tem a ver com tudo. Não há registo siamês que não compagine com uma nota, um adereço, uma foto ou um simples pormenor iconográfico cambojano, birmanês ou malaio. Portugal era, ainda no século XIX a bater à porta do século XX, a grande referência inspiradora nesta vasta região entre a Índia e o Império do Meio. Pena que ninguém disso queira saber na definição da nossa política externa e que sigamos, sempre, infileirados no comboio do europês sem memória e sem experiência do mundo.

6 comentários:

adsensum disse...

Olá Miguel.
http://www.museudooriente.pt/218/deuses-da-asia.htm

Pedro Marcos disse...

Miguel, todos os seus postais (sempre magnificos) de temática marcial estão a ser também divulgados no Fórum Defesa.

É difícil para um português (ou alguém honesto) não se comover com a sua prosa.
E certamente mais ainda com a demonstradamente artificial degradação da nossa consciência nacional, que, sublimada, transcende o mais vil e vulgar dos nacionalismos, redutores e infantis.

Começa a ficar cada vez mais clara (até para um céptico como eu, pouco dado a estas coisas) a missão divina de Portugal.
Portugal é mesmo muito mais que um ridículo rectângulo geográfico localizado num sítiozeco qualquer. É mesmo uma ideia, certamente das poucas que valem alguma coisa.

Bem haja Quem a inspirou e quem a defende!

Um abraço,

Pedro F. Marcos

Nuno Castelo-Branco disse...

Para o Pedro Marcos:

E as Forças Armadas, como podem compactuar com uma situação destas?

João Pedro disse...

A cruz da segunda imagem é a mesma que figurava no estandarte do Reino Latino de Jerusalém.

Pedro Marcos disse...

Nuno,

As Forças Armadas?
Nós não temos forças armadas. Esses são apenas mercenáriso ao serviço do Ministério Estrangeiro dos Negócios Portugueses.
Tal como no tempo do Império Romano, apenas temos algumas coortes que apenas servem para integrar legiões internacionalistas.

Quando falo de Defesa falo dirigindo-me aos Portugueses que se vêem como tal. Apenas para esses.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

A importância do seu trabalho transcende tudo o que a concepção materialista do mundo, dominante no Portugal de hoje, poderia lhe atribuir.
Enquanto não honrarmos devidamente a memória destes irmãos esquecidos e continuarmos a homenagear aqueles que são dignos do nosso desprezo, como é o caso dos nossos governantes actuais, seremos uma nação maldita e fracassada.
No dia em que finalmente estivermos em paz com nossos irmãos falecidos e manifestarmos gratidão pelo seu sacrifício, que hoje desrespeitamos ao permitir a nossa colonização por Bruxelas em troca de umas esmolas, Portugal será restaurado.
Não é por acaso que todas as grandes nações nunca deixaram os seus mortos sem homenagem. Basta pensar nos imensos esforços de Roma para recuperar os mortos das legiões de Varo ou nos vastos recursos que gasta a América para recuperar seus soldados desaparecidos.

Um grande abraço!