27 dezembro 2009

O país onde os professores são venerados

São mal pagos mas venerados. Perante eles, os alunos ajoelham-se ou sentam-se a seus pés com as mãos juntas, como só o fazemos perante os altares. São os Gurús, do sânscristo Ku-rú, que os thais fixaram e modernizaram como Krú. Os professores primários e do liceu são chamados Krú, mas aos docentes universitários é reservado o tratamento de Adjaân, ou seja, guias, mestres e reveladores do conhecimento. Numa sociedade que se inspira no modelo bramânico, o krú é o eco tardio do sacerdote bramânico, casta despojada de riqueza material, acima das preocupações que movem artífices, comerciantes, soldados e administradores. Perante eles, os tailandeses assumem uma atitude reverente, não falam, ouvem e acenam afirmativamente com pequenos movimentos de cabeça. Aqui não se bate nos professores, não se insulta um professor nem há comissões de pais iracundos fazendo esperas, proferindo ameaças e justificando o fracasso dos rebentos na culpabilização de um professor. Este é, sem tirar, o paraíso daqueles que ao ensino consagraram as vidas, escolhendo nessa ocupação a pobeza voluntária compensada pelo tributo de respeito e agradecimento dos jovens aos quais consagram as vidas.


O Krú é a antítese do "colarinho branco", do "executivo" e do obcecado pelo dinheiro. No funcionalismo do Estado, o Krú tem direito a um uniforme de cor creme, a divisas, galões e medalhas, que orgulhosamente ostenta. Um professor primário é um alferes ou tenente, um professor de liceu um capitão, um assistente universitário um major, um doutor um coronel. Das mais remotas aldeias e vilas da Tailândia rural às grandes universidades da capital, envergam a farda do seu métier e é habitual vê-los, orgulhosos, passear pelas ruas ou pelos mercados entre a massa da população que, ao identificá-los, sorri agradecida.


Está em exibição nos cinemas um filme que é a exaltação do professor. Tem por título Krú Bâan Nok - o Professor da Aldeia dos Pássaros - e conta a saga de um jovem professor primário chegado aos confins da Tailândia nos anos 60. Ali chegou para ensinar a ler, escrever e contar, mas também para estimular a iniciativa colectiva, demonstrar os benefícios do saneamento básico, da limpeza e asseio dos corpos e das ruas, do exercício físico, do patriotismo e da cidadania. É um hino à heroicidade do funcionário do Estado que não busca recompensa pecuniária, que se defronta com a reserva dos poderosos e acaba por se tornar no líder da Aldeia dos Pássaros. Comovente, arrebatador, merecedor de cópia entre os portugueses.
Há dias encontrei uma velha professora universitária nos arquivos nacionais. Eu estava na companhia de um americano que ali também faz investigação. A senhora, nos seus setenta anos, perguntou-me o que ali fazia. Naturalmente, estando ela sentada, não fiquei de pé nem me sentei na cadeira vazia que ela me indicara. Vergei as pernas e coloquei-me, como o fazem os thais, num nível inferior à cabeça da professora. O americano, esse ficou de pé, com as manápulas nos bolsos e a mascar pastilha-elástica. No fim, perguntou-me: "que raio de posição a tua, até parece que lhe deves alguma coisa". A típica atitude do ocidental, que olha para os professores como pessoas que não possuem predicados para fazer dinheiro; logo refugiam-so no ensino. São dois mundos. Por mim, estou cada vez mais deste lado da civilização.


Nakpendin = Terra Forte (1944)

8 comentários:

Isabel Metello disse...

Gostaria de lhe dedicar o meu último post no BNW ;) http://briefnewworld.blogspot.com/2009/12/via-sacra-alegoria-da-caverna-cantico.html

Manuel Brás disse...

De uma forma mais modesta, obviamente, revejo-me nesse personagem do jovem professor, ou seja, na pele de alguém ligado a um "sector" ostracizado do, já de si ostracizado, sistema de ensino português, a formação profissional, tendo deixado para trás outros voos... Por isso, não resisti, e enaltecendo este texto, deixo duas quadras com o respectivo "link" no meu blogue:

As palavras merecidas
pela sua heroicidade
devem ser enaltecidas
para bem da sociedade.

Uma profissão respeitada
longe da materialidade,
a educação arrebatada
elevará a civilidade.

Votos de (ainda mais) próspera sabedoria para 2010!

Nuno Caldeira da Silva disse...

É uma grande verdade o que escreves. Para além do professor a escola é uma lugar crucial na vida dos alunos no momento em que lá estão e no futuro. Há tempos num casamento fiquei na mesa dos colegas de escola do noivo e lá estava a Kru. É indescritivel como é que os seus alunos, agora homens, e um deles mesmo uma estrela da televisão e do cinema, passaram todo o tempo a tratar dela. Só visto

Combustões disse...

Nuno:
Quando tiveres tempo, vai ver o filme. Tem uma bela fotografia, intérpretes profissionais e amadores e uma história comovente e heróica; em suma, a boa Tailândia rural no seu melhor.

Combustões disse...

O filme começa a ser exibido no circuito comercial no dia 14, mas está nas bancas de sillon desde a passada semana ))))

Deolinda disse...

Desconhecia esta realidade.
Obrigada por este testemunho que me emocionou!

Levy disse...

É sempre bom saber que a minha classe ainda é apreciada em algum lugar do mundo.
O contacto mais próximo que tive com alunos dessas bandas, foi com os chineses, que são invariavelmente alunos exemplares.
Já me têm contado que o maior choque que sofrem quando chegam às escolas portuguesas, é o facto de os alunos portugueses namorarem em plena escola e os professores não lhes dizerem nada.

adsensum disse...

Por vezes, quando aqui venho e leio estes legítimos lamentos que escreve, fico com a triste sensação de que o Miguel está tão longe daquilo que é a nossa realidade infeliz. Digo isto com uma profunda nostalgia. Mas, infelizmente, sinto-o com convicção.
Recordo-me de frequentar a escola
primária (actual 1º ciclo) e de ser assumidamente comum que os professores representavam um conjunto de pessoas valiosas na educação enquanto profissionais e, ao mesmo tempo, por todos respeitadas e tidas como exemplo socialmente.
E tal não é por mim assim sentido pelo facto de ser filha de uma docente (até porque, por motivos diversos, não fui sua aluna). Era, isso sim, um conceito generalizado.
Um dia, se tiver interesse e oportunidade, dou-lhe a conhecer as memórias de minha mãe, as quais reflectem a salutar colaboração que existia entre a comunidade e o professor. São relatos em poesia desses momentos que já não existem e que o Miguel teima recuperar (e ainda bem).