21 dezembro 2009

Monteiros e Albergarias em terras do Camboja


Entre outra curiosa documentação que tive oportunidade de localizar nos Arquivos Nacionais do Camboja, encontrei processos completos de funcionários da Coroa e de servidores do Residente Superior francês. Exaustivas folhas de serviço, com apontamentos e notas marginais, correspondência, pedidos de informação, promoções e punições, gratificações e multas, são elucidativa mostra da instalação da modena burocracia e da transição do Estado dinástico patrimonial asiático para o império de Leviatã. Os cambojanos são, desde o século VI, uma sociedade bem ancorada na escrita, atestando a complexidade das suas instituições políticas. Entre algumas dezenas de processos consultados, destacavam-se os de servidores luso-khméres que residiam no país desde o século XVI e ali se mantiveram influentes até à chegada de Pol Pot ao poder. São gerações de Monteiros, Cantos e Albergarias ocupando lugares de relevo na administração palatina e nas sedes provinciais, uns escrivães, outros tradutores, outros ainda secretários, militares, tesoureiros, diplomatas e ministros. Eram homens bem relacionados, como o atestam as cartas de referência, com acesso directo ao Rei e ao Residente Francês, à alta hierarquia católica e, até, com sólidas amizades em Macau, em Singapura e em França, uma minoria que nada mais sabia fazer que servir o Estado.

Ao ler com maior atenção o relatório que Sir John Bowring - governador britânico de Hong Kong e Ministro Plenipotenciário para a negociação de um tratado com o Sião (1855) - publicou em 1857 com o título The Kingdom and People of Siam, encontrei, como outra coisa não seria de esperar, referências a Protuguet que trabalhavam, tal como os seus irmãos luso-khméres, para a corte. Entre eles, o incontornável Pascoal Ribeiro de Albergaria, citado por todas as missões diplomáticas que desde a década de 1820 haviam tocado o Sião. O homem, oficial general de artilharia, teve longa e próspera carreira e, tudo o indica, era também mestre de cerimónias da corte. Encontra-se sepultado num cemitério católico de Banguecoque, sintomaticamente localizado no chamado Ban Khmer (aldeia khmér). Perguntei a um dos seus descendentes, hoje quadro superior do MNE tailandês o que sabia do seu ilustre antepassado, mas não obtive resposta satisfatória.

Ao fim da tarde de ontem, ao chegar a casa, tive um pressentimento, uma daquelas intuições que violam as leis da racionalidade. Se Albergaria estava nas proximidades do ban khmér - poderia ter alguma relação com os khméres portugueses vindos para Banguecoque numa das três vagas de fugitivos cambojanos aqui chegados entre finais do século XVIII e meados do século XIX. Ora, por mero acaso, nos escritos de um diplomata britânico que veio a Banguecoque na década de 1820 encontrei a ligação: Albergaria era luso-cambojano e a sua família estabelecera-se em Oudong - e depois em Phnom Penh - para, em inícios do século XIX, transitar para Sião. Era bisneto de pai português e de mãe anglo-malaia "half caste" de nome Lister, convertida pelo casamento à fé católica. Os britânicos, sempre intratáveis nas desdenhosas apreciações racistas, tiveram por ele respeito imediato. Diziam ser um homem elegante, extremamente inteligente e comunicativo, muito apreciado pelo Rei siamês e altos hierarcas do Estado. Falava siamês, khmér, inglês, português e latim, ou seja, dominava as línguas que lhe proporcionavam um lugar indispensável em contactos com comerciantes, diplomatas e eclesiásticos europeus que passavam pelo reino. No próximo encontro com a família Albergaria de Banguecoque levo-lhes as boas novas. Agora, para além da pedatura siamesa e portuguesa, saberão que lhes corre nas veias sangue inglês e khmér.Estes não eram lançados nem aventureiros, desses "portugueses à solta" e "gente de bandel", semi-analfabetos e rudes que se confundem com a presença portuguesa fora dos territórios administrados pelo Estado da Índia. Eram letrados e, pelos apelidos, pertenceriam a uma pequena nobreza portuguesa que se lançou por mares em busca de nova vida.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Grande serviço ao país!