22 dezembro 2009

Monarquia nova


Por mais que os seus detractores insistam, ancorados em complexos e preconceitos malsãos e numa certa subcultura de burguesia de dinheiro novo inseguro, a evidência é que a solução monárquica se coloca hoje como futurível e muitos portugueses, de esquerda como de direita, aceitam agora discutir a Restauração como tópico relevante da agenda política. De tema marginal, a possibilidade da Restauração ganhou paulatinamente adeptos. Já não é um dado de memória, partilhado e transmitido por herança familiar; é uma corrente de opinião que vai ganhando espaço, que concita simpatia e adesões em todos os escalões sociais e profissionais. A república habituara-se a monarquices extravagantes de dedos brasonados e bizantinas exibições genealógicas; hoje debate-se com uma verdadeira insurreição cultural que lhe mina os fundamentos, a legitimidade e desafia a sua mitologia. De facto, a república nunca teve republicanos e os que teve confundiram-se sempre com o Partido Democrático, essa coisa tentacular, carregada de baias e dominada por pulsões liberticidas. Os republicanos, hoje, são poucos, inconsistentes e invertebrados. Pedem a mudança na república, mas tudo o que defendem já foi experimentado e falhou: falhou no republicanismo parlamentar primo-republicano, com uma chefia de Estado simbólica, falhou com o cesarismo plebiscitário de Sidónio, falhou com a presidência submetida ao "presidencialismo do Presidente do Conselho", falhou com o semi-presidencialismo de voto directo universal que ainda temos. No fundo, a república é o passado e desse passado não se consegue libertar. Está, arrasta-se, finge consenso. Não sendo detestada é, no mínimo, desprezada. Viraram-lhe as costas, por ela não se interessam, não mobiliza corações nem inteligências. Refém das lutas partidárias, a chefia de Estado republicana passou a ser encarada como pré-aposentamento para os locatários de Belém. Vai-se descendo em intervenção, subindo na hierarquia do Estado. O Presidente é, hoje, um Roi fainéant, um falso rei constitucional, sem o prestígio de um monarca hereditário, sem a influência fáctica de que gozam os reis e com a tremenda e irreparável suspeita de continuar, por mais que o negue, a depender do(s) partido(s) que o colocaram na chefia do Estado.

Por seu turno, a possibilidade de uma monarquia nova parece identificar-se com a grande política e com a destinação de Portugal. Hoje, defender a monarquia pressupõe a defesa de uma certa ideia de Portugal, da lusofonia, da preservação do mínimo da soberania do Estado, das liberdades regionais, da separação de poderes, da fiscalização dos abusos cometidos pela partidocracia, de colocar no seu lugar os plutocratas mais as negociatas e os favores. Defender uma monarquia nova é sinónimo de reposição da respeitabilidade do Estado, da solidariedade social e da realização dos grandes objectivos colectivos.

Acabei de ler uma excelente antologia comentada de textos de Lord Salisbury, quiçá um dos maiores pensadores de acção conservadores do século XIX, infelizmente pouco conhecido pela generalidade dos conservadores portugueses. Salisbury era defensor da paz e do equilíbrio, teoria que aplicava aos negócios estrangeiros como aos assuntos internos. Para a sua realização, advertia para o perigo do imobilismo conservador e do aventureirismo trabalhista. Uma política serena, de unidade no essencial, com partilha de responsabilidades era, em suma, a sua solução. Portugal precisa, mais que no passado, desta concórdia e deste embainhar de espadas. Portugal precisa de recobrar a segurança e o ânimo, voltar a gostar de si, pensar as aventuras do futuro. A república atira-o para o passado, para a guerra civil, para a disputa miniatural, para o fulanismo. É por isso que sempre que olho para os nossos príncipes vejo essa possibilidade de recobro do direito que temos ao futuro.Andámos 100 anos a perder tempo ! Nós, os austríacos, os hungaros e todos os poquenos povos que só foram grandes e unidos sob monarquia.

9 comentários:

AB disse...

Desculpe, caro Miguel, vc pura e simplesmente delira. Confunde os seus íntimos desejos com a realidade. Os monárquicos são, em Portugal, uma menoríssima minoria.

A tal vontade de mudança de regime que vc afirma haver onde está? Por onde paira essa multidão de apoiantes da monarquia que se não vêem?

Por que razão todas as sondagens e estudos vão no sentido de mostrar a insignificância numérica dessa estimável gente?

Lembra-se, em tempos, de eu lhe ter dito que vc, quando defende a sua dama ser igualzinho ao Saramago no estilo, na cegueira e no ódio quando este defende a dele? Aqui vão uns quantos exemplos:

"ancorados em complexos e preconceitos malsões e numa certa subcultura de burguesia de dinheiro novo inseguro"

"inconsistentes e invertebrados"

E muitos outros se podem encontrar neste blog.

Dito isto, concordo com uma boa parte do seu artigo, sobretudo na crítica que faz à república. Mas não é mostrando esse desprezo e esse ódio a tudo o que remotamente cheire a república que a água irá ao seu moinho.

E pronto, venham de la todos os sonhadores e quiméricos insultar-me.

Combustões disse...

Caro AB:
Onde está o ódio ? Eu não sinto ódio por ninguém, muito menos por pessoas que não existem, i.e, os republicanos. Se me apresentar um republicano, garanto alvíssaras.Refiro-me, como sabe, à patecice que infelizmente ainda faz grandes estragos entre as pessoas que se consideram "responsáveis" e "informadas" e que são, hoje, o maior freio à abertura a uma solução [democrática]para o bloqueio.

NanBanJin disse...

Meu Caro Miguel:

Muito a dizer eu teria sobe o teor deste artigo.
Por imposição de limites de espaço e tempo, não pretendo, nem pouco mais ou menos, vir aqui, neste quadro de comentários às "COMBUSTÕES", exercer qualquer contraditório; aliás e ademais identifico-me com uma parte significativa do conteúdo deste texto, bem como com uns quantos segmentos da linha de pensamento do Miguel, e como tal nem me passaria pela cabeça vir aqui cilindrar aquilo que, em larga medida, corresponde à minha visão sobre um certo número de realidades.

Mas a exemplo do comentador anterior, permita-me que lhe teça alguns reparos.
Sendo eu republicano, laico e liberal por educação - e aqui tem um, para surpresa do descrente -, encontro-me, contudo, a residir, por escolha, na mais antiga monarquia em exercício no Mundo, uma monarquia com traços deveras peculiares, diga-se em abono da verdade, e passível de nos levar ao mais acalorado dos debates.

Em qualquer recurso, gosto MUITO desta monarquia, e prezo muito e presto a minha pessoal e reverente homenagem à figura/instituição do Ten'O - que aliás completa hoje, dia 23/XII, a bonita idade de 76 anos e celebrou em data recente o seu 20º ano de reinado no Japão -, bem como a Família Imperial, que mormente tanto tabú e historieta de mau tom a enredá-la, merece a minha mais sincera simpatia e respeito.

Curiosamente é, no Japão e em outras duas monarquias de referência - Grã-Bretanha e Espanha - que tenho algumas das pessoas que me são mais queridas e por mim respeitadas, e foi precisamente da parte destas, que, ao longo, dos anos vi ser arremessados alguns dos sentimentos mais aberta e agressivamente anti-monárquicos, e quase sempre, note-se, fazendo recurso a uma argumentação, que, a meu ver, não neutralizando a ordem de razão das causas que abonam em fazor da atribuição da chefia estado a um monarca em qualquer parte do Mundo, merecerá sempre o benefício da dúvida senão mesmo uma refelexão de fundo e correspondente aceitação como corolário da mais cristalina das lógicas.

Compreendo e saúdo a imensa estima e reverência que o Miguel nutre e revela pela Monarquia Tailandesa e outras casas reais Asiáticas e Europeias, neste espaço; subscrevo em larga medida a sua linha de pensamento acerca de um sem número de temas e factos.
Mas em todo o caso, passar corrector branco sobre o todo-complexo de causas, sentimentos e constatações de facto que presidiram às vitórias republicanas numa Alemanha ou numa Áustria em 1919, numa Espanha em 1931, numa Itália em 1946, ou no nosso querido Portugal em 1910 (para não falar de estados onde o modelo republicano-federativo sempre foi a escolha mais que óbvia, e pense-se na Suíça, mesmo antes de 1848) não parece ser sensato.

No nosso caso particular Português, muito teria eu a dizer - não sou descrente de um movimento restaurador da monarquia em Portugal, mas também não lhe sou inteiramente favorável: haveria muitas, muítissímas questões de mais-que-mero-detalhe a debater e esclarecer antes que me fõsse possível tomar aqui partido.
Porque, em todo caso, não me parece que seja exactamente o regime republicano herdado de 1910, a tal figura que "não sendo detestada é, no mínimo desprezada" ou a quem caiba toda, ou sequer o grosso da responsabilidade pelo estado deplorável em que o país se encontra hoje, ou menos sequer a questão da atribuição da chefia de estado a este ou àquele presidenciável ou coroável, aquilo que pudesse, DE FACTO, fazer a diferença no cenário com que nos deparamos hoje: porque infelizmente é ao País Portugal em si, esse a quem demasiada gente virou as costas, por quem demasiada gente não se interessa, esse a quem tanto custa mobilizar uma falange que seja de corações e inteligências. E resolver isso, meu caro, é, a meu ver, algo que está muito para além da capacidade e da medida de uma mera sucessão de regimes e de figuras-de-prôa, para pesar de todos nós...

Com muita admiração e simpatia,
sempre,

NBJ, Fukuoka, Japão

João Távora disse...

Um belo texto, quiçá um pouco "à frente" da realidade. Suspeito que os monárquicos ainda tenham que mudar um pouco mais as mentalidades, e organizarem-se por forma a obterem meios e credibilidade. Temos muito, muito, que trabalhar.
Forte abraço e votos de feliz Natal.

António de Almeida disse...

Permita-me afirmar que nem tudo foi ainda experimentado, a minha preferência vai para regimes presidenciais, com o presidente na chefia do governo sem poder legislativo que deve pertencer ao parlamento. Sei que esta solução encontra pouquíssimos adeptos na sociedade, colhendo ainda menos no seio dos partidos, o que não espanta pois significaria uma redução do número de "jobs" disponíveis para os "boys and girls" que possuem cartão partidário. Uma solução monárquica, estou a falar da Monarquia Liberal, com uma forte componente parlamentar não seria em meu entender algo que me choque, chocante é este híbrido semi-presidencialismo que potencia conflitos e multiplica intrigas, sem trazer nada de novo, excepto a desculpabilização dos actores, que encontram sempre um bode expiatório, que lhes permite livrar de responsabilidades. No entanto a monarquia tem um senão, pelo menos em Portugal, bastou falar-se na Restauração para aparecerem algumas figuras, eu diria antes figurões ostentando títulos de Nobreza, alguns até foram comprados, que fazem mais pela República que qualquer republicano.

Nuno Castelo-Branco disse...

A Monarquia não vai ter nobreza, porque como classe social, desapareceu na História. Os títulos são monumentos, como a Torre de Belém. Já agora, o que dizer da nobreza da República, cujos comendadores são bem o que se sabe? E bem pagos.
Há mais de um século, ser- se nobilitado acarretava despesa para o titular (encarte, etc). Ser-se comendador da República, consiste num peso para o contribuinte - que paga a comenda mutilada -, nem sequer falando das negociatas que valeram a distinção.

NanBanJin disse...

"A Monarquia não vai ter nobreza, porque como classe social, desapareceu na História. Os títulos são monumentos, como a Torre de Belém."

Caro Nuno:

Estamos de acordo que assim seja. Muito bem. Eu também quero crer que sim, que é e que SERÁ tal e qual assim.

Mas primeiro, os promotores do movimento restaurador que nos dêem garantias sólidas que assim É e que assim SERÁ.

A não ser assim é melhor deixar a República sossegada.
Duques de Mafamude, Condes da Bobadela e Marqueses de Fanhões, JAMAIS.

Caloroso Abraço & Feliz Natal!

NBJ, Japão

Pedro Leite Ribeiro disse...

Os republicanos eram, no início do século XX, uma pequena minoria mas souberam encontrar solução para essa "pequena" contrariedade na arruaça e nos canos das espingardas. Ah! Mas sempre apregoaram as virtudes da democracia...

Incúria da Loja disse...

Ilustre Miguel, devo dizer que reitero o que escreveu. Excelente texto. A república é uma ficção constitucional que conceptualmente se revela, a cada dia da sua existência, um falhanço. Vai continuar a corroer Portugal. O presidencialismo (puro), que hoje já se debate à desgarrada, é uma blague ainda maior que o semi-presidencialismo. Imagine-se, daqui a uns poucos anos, o Eng. Guterres como Presidente em sistema presidencialista, sem qualquer "controlo" de parte alguma ?! Fico muito preocupado e com medo pelas gerações vindouras...! Contudo, e na senda do que dizia, há de facto um crescendo daqueles que preferem um Rei a um presidente enquanto chefe de Estado. É neste contexto, mau infelizmente, que um Rei ganha espaço e, sobretudo, sentido institucional. São precisamente as nossas instituições que requerem à sua mais alta magistratura uma absoluta idoneidade, não meramente teórica mas sim de facto. Os portugueses não sentem essa idoneidade no actual sistema, e por isso não se interessam (não votando).
Só um Rei assegura essa idoneidade, por melhor que seja um presidente. Monarquia sempre. Eu quero um Rei! Eu quero um Portugal de novo com os olhos postos no desenvolvimento humano, na lógica das 6 monarquias entre os 10+ países em IDH. Esta referência é percentualmente alta de mais para ser uma mera coincidência. Bem-haja. Pela Incúria da Loja, Pierre.