04 dezembro 2009

A força do Rei é a força do povo


Hoje fui colhido de surpresa. Pelas quatro e meia da tarde, aviões de reconhecimento da Força Aérea Real sobrevoaram insistentemente a zona onde vivo. O céu estava listado com o rasto de fumo azul, branco e vermelho que os aparelhos despejavam. Depois, voltavam de novo e libertavam uma esteira de espesso fumo amarelo dourado, simbolizando a bandeira real. Do Estádio Nacional, que se situa a menos de duzentos metros do meu prédio, ecoavam em intensidade crescente cânticos patrióticos, vivas ao Rei e à nação, bem como o rufar de tambores.



Agarrei na máquina fotográfica e saí correndo de casa. Só no curto trajecto me dei conta que hoje, véspera das grandes manifestações patrióticas que amanhã celebrarão o aniversário do Rei, tinha lugar o encerramento da campanha de 76 dias de comícios em homenagem à bandeira, ao hino e ao Rei, que aqui tenho oferecido com regularidade ao conhecimento dos meus leitores. Foi difícil entrar no estádio. Uma massa compacta de gente de todas as idades tentava entrar no grande recinto por duas portas atentamente vigiadas por forças de segurança. Lá fora, ainda tirei meia dúzia de fotos a jovens das escolas secundárias das redondezas. Uma simpatia vibrante, muitos sorrisos e palavras de ordem repetiam-se como um mantra patriótico: "Raw Rak Náy Luang" (nós amamos o Rei) e "Chayô Chayô, Chayô" (vitória, vitória, vitória).


Galguei as escadas íngremes e entrei para uma das bancadas. Faltava hora e meia para a cerimónia do hino e o estádio estava completamente cheio. Milhares de bandeirinhas nacionais e bandeiras amarelas do Rei agitavam-se freneticamente. No palco, uma banda executava o Rak, Khon Thay (amar o povo thai), um clássico do nacionalismo tailandês dos anos 40. Pelas cinco da tarde, o primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva, a nova coqueluche de popularidade das massas, entrou na companhia do governo. Foi um estrondoso e demorado aplauso que se prolongou por cinco minutos. Uma senhora de idade, trajando o uniforme das milícias rurais, disse-me: "este jovem [o primeiro-ministro] faz-me lembrar o nosso Rei há quarenta anos". Com efeito, o líder monárquico tailandês já bate em todas as sondagens o proscrito Thaksin e introduziu um estilo de governação que prefere o diálogo à demagogia. É filho, neto e bisneto de uma família sino-tailandesa que serve a coroa desde o século XVIII e vai, lentamente, afirmando-se e conquistando o coração das pessoas. Abhsit não dá motocicletas, nem telemóveis, não paga excursões; ouve, senta-se com os camponeses, veste-se como eles e tenta compreender os problemas. A Tailândia saíu, decididamente, do torvelinho da crise política.




Entre o público presente, talvez umas 50.000 pessoas, destacavam-se as escolas e universidades, que encheram o relvado do estádio, mas também deputações das forças de segurança do Estado, dos sindicatos e confederações profissionais. As famílias vieram por atacado, com avós, irmãos, filhos e netos, numa gritaria de exaltação patriótica espontânea quase impossível de transmitir. A cada delegação que entrava precedida por enormes estandartes, um ulular tão forte que me feria os tímpanos. A Tailândia está bem preparada para o embate com a plutocracia. Aqui vive-se um patriotismo tão entranhado e genuíno que as sereias da desordem e do caos, da demagogia e da luta de classes têm enorme dificuldade em penetrar esta blindagem de ordem e união.

Nos rostos dos idosos lê-se admiração e reconhecimento pela obra do Rei. É gente que acompanhou, desde 1946, a lenta e difícil ascensão e consolidação do prestígio da casa real, que foi testemunha das tremendas batalhas pelo desenvolvimento económico, pela difusão do ensino e afirmação da cidadania, o triunfo militar sobre o comunismo e recentemente a consolidação da democracia. É gente que comunga crenças religiosas distintas, que fala línguas e dialectos diferentes, que possui diferentes tradições regionalistas. Ao longo dos últimos meses, desde que o Rei adoeceu, verifiquei que as minorias - católicos, muçulmanos, hindús, sikhs - amam o Rei de forma tão intensa como a maioria thai budista.


A maioria dos presentes envergava a camisola rosa, pois hoje, sexta-feira, é o dia rosa. Para cada dia da semana há uma cor propiciatória, mas qualquer que seja a cor, estampadas sobre o peito, estão as armas reais da dinastia Chakri. Aqui, o patriotismo está para a sociedade como o Budismo para os indivíduos: não se pode viver fora da comunidade, tal como os animais da floresta, sem aqueles valores que são arrimo da integração social e da unidade do Estado. A busca da salvação individual pelo mérito, essa recai sobre cada um. Aqui, a religião não é coerciva, não se funda em qualquer dogmática, não vigia nem pune os indivíduos; entrega-lhes a responsabilidade de serem, cada um por si, os artífices do seu destino.



De marcha patriótica em marcha, o ambiente para o grande momento foi-se transformando em liturgia. A noite caia e minutos antes das seis, hora a que os thais param e entoam o hino, a banda tocou a marcha que marcou estes últimos 76 dias de maratona patriótica. De repente, silêncio absoluto. O gongo tocou e a voz de uma locutora dominou o estádio: "wella sip pét nariká" (quando soam as seis da tarde). O hino nacional foi cantado em plenos pulmões. O primeiro-ministro entoou-o com grande desembaraço e a multidão seguiu-o. Depois, cantou-se a marcha dos reis e, por fim, o hino real. Cada um acendeu uma vela. O estádio transformou-se numa constelação. O céu encheu-se com as explosões muticolores de fogos de artifício e o acto de afirmação patriótica terminou. Mais um grande dia. O patriotismo é como a missa: tem de se celebrar todos os dias. As canções patrióticas constituem poderoso agente de exaltação patriótica, pelo que aqui não há criança que não conheça umas boas centenas. A este reportório cham os thais "Pluk Jáy", o que quer dizer "semear o coração".



Há coisas que estão para além da esfera da política, que não podem ser apoucadas e infamadas, por serem substância da vida comunitária e da liberdade individual e colectiva. Aqui não passou, por ora, o criticismo esterilizador, a maledicência e destruição das exemplares referências que alimentam a vontade de viver em partilha. Aqui, ao contrário de muitos países, o Estado não declarou guerra à cultura, à história e ao patriotismo do povo. Os thais sentem que passaram um mau momento, que aqueles que traziam a parvalhização plutocrática estiveram a milímetros de tudo destruir. Finalmente, a maré da nova barbárie do dinheiro estatelou-se contra a muralha de corações e regrediu. Hoje comemorou-se essa vitória. Amanhã, pensa-se que acorrerão dois milhões de pessoas à grande concentração em homenagem ao Rei. Com esta gente, a plutocracia não faz farinha ! Aqui, o povo é livre porque encontrou no Rei a força da maioria contra a minoria do dinheiro e das negociatas.

4 comentários:

Raimundo_Lulio disse...

Tenho sempre grande desconfiança e repulsa pelas manifestações populares. Faz-me lembrar os apoios sentidos a Chavez, Stalin, Hitler ou Salazar. Desconfio das motivações desinteressadas da populaça. Tal como aqui a natureza humana não deve ser muito diferente. Oxalá me engane.

Rogério "Loreira" disse...

Belo, belo, belo, belo...Sem dúvida alguma, o Velho Continente, tem muita a aprender com esta grande lição de fidelidade do povo da Tailândia para com o seu Monarca!!!
Belíssimo!
Parabéns ao autor deste blog por esta grande e belíssima "reportagem"...muitos parabéns!

Combustões disse...

Boas elites fazem bom o povo. Há uma aristocracia ingénita, como há, também, inclinação para a canalhice. O bom governo é aquele que cultiva a primeira e impede que a outra se manifeste.

Nuno Castelo-Branco disse...

Isto foi ontem, a preparação para o dia 5. Tive a oportunidade de participar há uns 16 ou 17 anos, quando aí estive de férias. Quando cheguei à cidade, julguei que as iluminações eram para agradar aos turistas, na época natalícia. É esta, a nossa arrogância, sempre a pensar em nós. Qual quê?! Que disparate, como se os tailandeses se sujeitassem a umas vendas por catálogo.
Era a festa do rei.