03 dezembro 2009

Eu ainda vivi na Pré-história: os Tupperware


Hoje dei comigo a rir sózinho pensando em objectos que fizeram parte da minha "cultura material" ao longo das últimas décadas, uns cobiçados como quintissências do "progresso", outros marca de status com os quais amigos se pavoneavam e impunham como "pessoas modernas". A mais delida memória de infância vai, certamente, para os chás Tupperware dos anos 60. Pelas quatro, scones e chá, os moleques a um canto da sala, muitas senhoras fumando e discutindo as grandes sensações do último catálogo de novidades: as novas raspadeiras de cenoura, as caixas, caixinhas e caixonhas, redondas, quadradas, triangulares, copos em cores garridas, formas para gelatina, couvettes para gelo, saladeiras; sei lá, um monte de lixo que ia tomando conta da copa e cozinha. Eram os Tupperware coisa caríssima, mas havia quem gastasse a exorbitância de 800 Escudos - uma fortuna - e levava para casa plástico para anos. A moda veio dos EUA e espalhou-se como o tifo destronando os vidros e porcelanas baratos. Quem não servisse ao lanche um copo de Tupperware, quem não levasse para a escola ou para a praia meia dúzia de caixinhas com a sandwich, a fatia de bolo e o leite com chocolate era imediatamente segregado: era um "patego". Depois, o plástico e as vendas por catálogo decaíram, democratizaram-se. Anos 90 entrados, tivemos a voga da Amway, já nas mãos de uma micro-burguesia desconhecedora do segredo do Tupperware: o encontro, o talhar de fronteiras sociais, o ser-se "dona de casa moderna", mesmo que tais donas de casa - a expressão hoje soa quase como um insulto - tivessem meia dúzia de moleques, os de "dentro" e os de "fora" [de casa].

Acho fui uma criança estuporada: trancava o "mainato" na dispensa durante horas, fazia telefonemas a pedir lautos almoços para a casa da vizinha em nome do Sr. Marquês de Carabás, cheguei a simular um desastre, cobrindo-me com massa de tomate e tintura de iodo até a ambulância chegar, perguntei em alta voz num acto público "que é este senhor com cara de macaco ?" (tratava-se do Eng. Arantes Oliveira, ex-ministro de Salazar e então Governador Geral de Moçambique) e cometi uma das maiores façanhas num dos ditos chás Tupperware por volta dos sete anos.

Numa tarde em que se realizava a "reunião de senhoras", despertei da sesta e entrei na sala. As senhoras pararam de imediato e disseram aquelas coisas que se dizem às crianças: "olha o miguelinho", "como está grande", "então, já acordou para o bolinho ?". Para desespero da minha mãe, coloquei a mão em forma de pala em cima dos olhos e repeti aquilo que um "patego" me ensinara na escola primária: "ena pá, taaaanta p.......". A minha mãe ficou siderada e quase me matou. Nunca mais fui a um chá Tupperware !
Hoje perguntei ao Bikky - o assistente tailandês que me tem dado preciosa ajuda na leitura dos documentos em thai arcaico - se conhecia os Tupperware. Virou-se e perguntou: é alguma banda metálica ? Não, não era metálica, era plástica. Olhou-me como se eu tivesse enlouquecido.



João Maria Tudela: Moçambique

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Esse episódio é um clássico familiar. Não levaste umas palmadas porque eras pequeno e além disso a culpa não era tua. Foste "industriado".

Daniel Azevedo disse...

Caro Miguel

O seu momento tupperware assustou a minha filha com as minhas gargalhadas! Ainda me doi a barriga de rir! :)

bem haja

adsensum disse...

Pois, as reuniões Tupperware estão em desuso já há alguns anos. Agora, mais mais é tuppersex. Pensei que se tratava de apanhados quando vi a notícia. Mas não. É real.
Se o senhor Tupper soubesse...