03 dezembro 2009

Eu ainda vivi na Pré-história: fumar no cinema


Não se lembram dos filmes com dois intervalos ? E dos filmes com três intervalos ? Anúncios, intervalo. Desenhos animados e documentários, intervalo. Se a fita fosse longa - lembro-me da grandiosa Guerra e Paz, produzida em grande escala na União Soviética, 484 minutos em quatro episódios, o mais caro filme jamais realizado - havia um bónus de intervalo, um terceiro, tudo incluído no preço do bilhete. Não se ia ao cinema em vão. As pessoas vestiam-se a rigor, as senhoras iam ao cabeleireiro e até se levava livros na mão [para os intervalos]. Depois, o cinema era para se "ser visto". Uns iam ao cinema A, outros aos B. As [pessoas] de classe C, iam lá para baixo. Lá em baixo, havia preços diferentes: 6$00 nas primeiras filas, 12$00 no meio da sala e novamente 6$00 para as últimas filas. Os "lá de cima" pagavam preços diferentes, conquanto se sentassem nos frisos laterais ou mesmo em frente da pantalha. Havia uns lugares estranhos lá em cima, bem atrás de tudo, junto da parede de onde jorrava a luz azul-branca do projector. Eram lugares malditos. Só depois, quando crescido, me explicaram que aqueles lugares não se destinavam a pessoas que iam ao cinema para ver cinema. Iam por razões outras.

O mais insólito dos filmes da minha infância eram as imposições da idade. Filmes para todos, filmes para maiores de 6 anos, filmes para 12 e para dezoito. Lembro-me ter chorado baba e ranho para entrar no Cromwell, e ter de implorar a um arrumador vestido de almirante, cheio de dragonas, calças com passadeiras vermelhas e chapéu à ditador sul-americano que tivesse a bondade de me deixar entrar. Lá entrei, a tempo para assistir à decapitação do Rei Carlos I, a razão da interdição.

Depois, nos cinemas, falava-se, falava-se muito. Nas "matinés" de domingo, as criadas iam com os meninos. Algumas, que mal sabiam ler, liam em voz alta um terço das legendas e faziam comentários: "olha, agora ela diz que se vai embora" ou, acercando-se o fim, "parece que o filme vai acabar, temos de correr para não ficarmos presos à saída". O fumo, uma névoa grossa e suspensa, invadia o cinema. Era na altura em que um maço de tabaco com filtro custava 2.20$00 e havia fumadores de quatro maços por dia. Ora, durante uma sessão de duas horas, mais intervalos, fumariam 24 ou 26 cigarros. Multiplicando por 200 homens (as mulheres fumavam em casa, era mais chique), haveria fumo correspondente a 4000 cigarros consumidos com as enervações da fita. No Scala, o grande cinema, os números eram mais expressivos. Se a sessão estivesse cheia, mil homens e mil mulheres, então o The End seria coroado com 24.000 cigarros. Quando tudo terminava, o chão estava coberto de beatas retorcidas, algumas ainda fumegantes. Dizia-se que era preferível fumar cachimbo, pois o perigo de incêndio era menor. Aqui está o motivo pelo qual nos cinemas havia sempre uns bombeiros - verdadeiros bombeiros, com capacete de aço na cabeça e e daqueles machado que já só se utilizam nos desfiles militares da Legião Estrangeira - sempre prontos a intervir. Isto foi há trinta e tal anos, ou seja, no milénio passado.

Bons tempos em que havia liberdade para as pessoas se matarem dentro dos cinemas.

2 comentários:

Vera Y. Silva disse...

E eu lembro-me dos professores fumarem nas aulas e dos jornalistas fumarem nos noticiários.

João Pedro disse...

Não sou do tempo em que se fumava nos cinemas, mas lembro-me dos dois intervalos.
Quanto ao fumo dos professores, ainda há uns dez anos via orais na universidade com os arguentes a fumar.