07 dezembro 2009

Eu ainda vivi na Pré-história: a criadagem


Nota prévia: ao contrário das sociologi[ces] e das "mitodologias", muito assépticas, muito bata-branca e luvas de poliuretano, a vida parece contradizer as racionalizações, acertos e julgamentos à posteriori, não passando aquelas, as mais das vezes, de simples anacronismos. Estas notas não são, pois, manifesto de qualquer visão do mundo, mas simples apontamentos do que vi. É importante o aviso, pois nos tempo que correm há sempre um censor à espreita.


Não havia família que se prezasse que não tivesse criados. Havia-os conforme o nível dos patrões. Em África, criada branca era um luxo, mas o luxo pagava-se caro. Era uma segunda patroa, a comandante dos criados, que por sua vez se estratificavam em moleques, mainatos e cozinheiros, estes últimos verdadeiros sobas que exerciam poder sobre os demais da sua raça. Os criados africanos tinham pedigree diferente. Uns eram uns verdadeiros príncipes, netos ou sobrinhos de reinetes e não se misturavam com os outros. O tribalismo separava-os em níveis distintos de respeitabilidade. Ninguém aceitava ter um M' Chope em casa, pois a casta especializara-se na arte de varrer as ruas das cidades. Trabalho só arranjavam nos serviços camarários. Um criado angoni ou vátua valia uma fortuna. Eram uma espécie de alemães de Moçambique: consideravam-se superiores aos outros, nunca recebiam ordens que não dos patrões e só aceitavam farda diferente.


Fardas, havia-as conforme o nível do criado: calção e camisa castanha alaranjada ou azul para os criados menores, calça comprida e camisa para criados superiores. No fim da era colonial, com o desafogo que se respirava, os criados superiores passaram a recusar farda e vestiam-se com o que de mais caro podiam comprar nos bazares. Tinha um criado que só vestia calças com boca de sino, sapatos de quatro andares e camisas de seda brilhante, isto para o trabalho. Quando saía para passear, levava óculos escuros - de noite como de dia - e transportava às costas um daqueles rádios de dez quilos e som poderoso que apareceram no princípio dos anos 70. A maquineta despejava em altos decibéis marrabentas e música sul-africana pop que se ouviam no quarteirão seguinte.


Depois, os criados tratavam de forma diferente as visitas da casa, conforme a posição que o seu juízo atribuía aos estranhos. Se eram "brancos de segunda" - vendedores, cobradores, "cravadores", como lhes chamavamos - entravam pela cozinha. Porta da frente, só para "senhores e senhoras". Quando o convívio interracial se tornou prática comum, os mistos tiveram problemas. Os negros odiavam os mestiços e não aceitavam que fossem "senhores e senhoras" como os "outros". Se fosse indiano, a cara fechava-se. Nunca vi tanto ódio negro acumulado e tanto ressentimento como aquele que era destinado aos indianos. Se a visita fosse negra, era um problema, um problema muito grave. Lembro-me que um dia o grande pintor Malangatana, amigo dos meus pais, lá foi a casa almoçar. O criado que servia chamou a minha mãe e impôs-lhe condições pouco menores que um ultimato: "se a Senhora me obrigar a servir este preto, vou-me embora". A razão era simples: Malangatana Valente era oriundo de um grupo étnico que o Augusto - Augusto Matavela, de seu nome - considerava inferior à sua pedatura, pelo que obrigá-lo a servir um inferior o sujaria.


O criado de primeira tinha um sonho: fazer a escola primária e ir trabalhar para uma companhia. No dia em que terminou a 4ª classe, o Augusto colocou uma mão dentro da camisa, outra atrás das costas e disse: "agora já sou Napoleão". Era um excelente homem e considerava-se um bom português. Discutia longamente com um vizinho, também criado, as lutas entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa, sabia de cor os reis e dinastias e cantava o tema de Lara com uma letra bem portuguesa: "Je-êe-sus Cristooooo, nasceeeuu'o em Belém". Um dia apareceu fardado. Tinha sido chamado para o Exército e foi cabo.


Dos píncaros da criadagem já falámos. Agora, havia outros, os qua iam para casa dos patrões e aí aprendiam o português. Tivemos um matulão de quase dois metros chamado Eugénio Lombé, mas insistia que lhe chamassem Eugéninho. Tinha a força de um tractor e de um Caterpillar juntos, nunca foi grande na arte das limpezas, nem dos cozinhados, mas era uma boa alma e de fidelidade quase inumana. Era um inocente, com um sorriso de orelha a orelha e a especialidade era levar os meninos à escola. Levava-nos - a mim, ao meu irmão Nuno e à minha irmã Ângela - todos juntos, um às cavalitas, os outros dois em cada braço. Força desta já não há.


O Eugéninho aprendeu o português por frases feitas. Ao princípio, soava a campaínha, ia à porta abrir e perguntava de chofre à visita, antes que esta tivesse tempo de perguntar fosse o que fosse: "boa dia senhor/a, não as deseja pão com doce muito gostosinho ?". Quando veio o 25, o Eugénio ouviu demais o que se propagava pelos bairros da periferia. A minha mãe perguntou-lhe: "Eugénio, se um dia pessoas más quiserem matar a senhora e os meninos, o Eugénio fazia mal à senhora e aos meninos ?". Resposta: "minha senhora, se eu matasse a senhora e os meninos, matava depressa para não fazer mal".

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

TUDO VERDADE!
S´te enganaste numa coisa: o Augusto cantava o tema de Lara, assim:

"Je-e-e-sus Criiiisto,
na-a-asceu na Metrópole"

Para ele, Belém era na Metrópole.
O que será feito dele? Com os louvores que recebeu na guerra, deve ter sido liquidado pela "libertação".

M Isabel G disse...

E eu nunca me esqueci deste episódio qu eo Miguel me contou há anos!

joserui disse...

Texto fenomenal. -- JRF

Deolinda disse...

Também prefiro este modo de "sociologizar".
"Comi" com prazer...Se nos tivesse oferecido queijos elaborados pela tecnologia, nem os teria cheirado...