16 dezembro 2009

Dolorosas novas


Encontrei ontem doloroso testemunho da tragédia portuguesa de 1908. Datada de 15 de Fevereiro - uma semana após o regicídio - assinada por D. Manuel II, a carta anunciava ao Rei Chulalongkorn do Sião o passamento do Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luís Filipe. Mais que uma breve e protocolar nota informativa, presente-se a dor do novo e jovem monarca ao dar a triste notícia a um chefe de Estado que vivia no outro lado do mundo, mas que tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente em 1897, quando Chulalongkorn por Lisboa passou em digressão oficial. Os arquivos tailandeses estão, como verifico, carregados de testemunhos portugueses, aqui encontrado valiosos documentos que em Lisboa, na voragem de insensibilidade, criminosa incúria e facciosismo se perderam para sempre. Que vergonha ter de vir à Tailândia para encontrar documentação portuguesa, escrita em português e emitida pelo Estado Português.


(...) "As mortes do meu muito amado e prezado pai e do meu muito querido irmão, vítimas de abominável assassinato deixaram-me entregue, bem assim à totalidade da Nação Portuguesa, na mais profunda aflição. (...) O interesse que VM sempre mostrou por toda a minha família é consoladora esperança de que Vossa Majestade tomará uma viva parte na acerba mágoa que me causaram tão cruéis golpes. Chamado n'estas tristes circunstâncias, pela ordem da sucessão e na continuidade das leis do Reino de Portugal, ao trono de meus antepassados, rogo a Vossa Majestade haja dispensar-me os mesmos sentimentos de afecto que dedicava ao Augusto Monarca falecido e de ficar certo do vivo desejo que tenho de estreitar cada vez mais as relações de boa inteligência que felizmente subsistem entre os nossos países(...)".

Dois anos depois, a república era imposta a tiros de canhão e as relações luso-siamesas eclipsaram-se, passando a representação consular para mãos de italianos pelas décadas de 20 e 30, até à chegada de um português nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Portugal perdeu, então, a última oportunidade de manter no Sião o estatuto de potência aliada, a mais antiga e respeitada, que os siameses sempre lhe haviam tributado. O estado de coisas foi tão confrangedor que um dia, por volta de 1911, a polícia siamesa entrou pelo nosso consulado adentro para questionar os residentes a razão "daquela bandeira que ali puseram no jardim". Referiam-se, claro, à verde-rubra que ninguém conhecia e que Lisboa não tivera sequer a sensatez de anunciar aos países com os quais mantinha relações diplomáticas. Coisas do amadorismo de uma república que se vai celebrar !

6 comentários:

Rogério "Loreira" disse...

Boa tarde.
Meu caro, sempre que visito este blog, fico sempre surpreendido pela qualidade dos artigos que aqui coloca! Este documento que agora publicou, e que do qual desconhecia completamente, é um documento histórico valiosíssimo que, infelizmente, não se encontra em Portugal! É duma insasentez do tamanho do mundo! Bonito gesto de El Rei D. Manuel II, que foi injustamente expulso do seu amado país a tiros de canhão por uma revolução republicana, que quase o matava, visto o jovem monarca ainda se encontrar no Palácio das Necessidades, valendo-lhe a vida um funcionário do palácio ao retirar o estandarte real do mastro do palácio...
Triste destino deste nosso último Rei, que mesmo no exílio sempre se mostrou preocupado com o seu amado país.
Morreu no exílio em Londres sem nunca nunca mais pisar o seu amado país...
Viva El Rei D. Manuel II, o Rei Patriota...Bem haja.

Nuno Castelo-Branco disse...

Tudo "nos conformes"...

Pedro Leite Ribeiro disse...

Com um pano tão feio, admira que o mesmo não tenha acontecido em todas as embaixadas e consulados! Até os polícias tailandeses tinham melhor gosto!

Carlos disse...

Meu Caro: Parabéns pela qualidade do Seu artigo e pela sensibilidade que demonstra ao nos presentear com estes documentos ímpares. É com um misto de alegria e tristeza que os leio, já que um meu bisavô foi precisamente um dos comandantes da Guarda Real de D. Manuel II, tendo-o já sido de seu Pai. Também ele foi assassinado, durante a infame república, pela não menos infame GNR, a golpes de sabre à frente da sua família. Tudo por manter a sua lealdade para com a Pátria e o seu Rei no exílio.

Mas D. Manuel II também viria a ser assassinado em Londres pela carbonária, em 1932. Um assassinato ritual, com a marca indelével do vitríolo, que levou a que o corpo do Rei se decompusesse em poucas horas. E, vergonha das vergonhas, a bandeirola verde e rubra é a cópia quase fiel da bandeira da carbonária portuguesa.

Mas enfim, ignomínia maior do que o trapo azul com as estrelecas hepáticas, hasteado em tudo quanto é sítio, acompanhado com a vergonhosa «obrigatoriedade» de cada um de nós ostentar o infame símbolo estrelado nas matrículas dos nossos carros, símbolos de uma ocupação ignóbil, é difícil.

Um grande abraço fraterno desta Pátria que se afunda na «apagada e vil tristeza».

Um bem-haja, e calorosas saudações monárquicas.

Carlos Portugal

Daniel Azevedo disse...

Desculpe uma pergunta ignorante:
O rei tailandÊs sabia falar/ler o português?
Vejo que a carta está escrita em português e pensava que até 1918 a linguagem diplomática, incluindo a utilizada nesta carta de cariz mais pessoal, seria o françês.

Combustões disse...

Como sabe, a língua diplomática do Sião até meados do século XIX foi o português. Depois, os siameses optaram pelo inglês. O Rei Chulalongkorn tinha, entre os seus assessores, portugueses contratados.