02 dezembro 2009

Campos de papel


Para quem já fez trabalho de investigação em História sabe do entusiasmo, das viagens e aventuras solitárias que se podem fazer dentro de casa, no silêncio do estudo. Contudo, a redacção de qualquer livrinho, por mais insignificante, envolve milhares de horas, resmas de fotocópias, centos de fichas anotadas, retocadas, corrigidas ou rasuradas de cima a baixo. Depois, há os livros comprados ou requisitados em bibliotecas, as obras de referência lidas e comentadas em glosas laterais, mais as fotos tiradas nos arquivos, os documentos em microfilme, as transcrições parciais de processos, os relatórios; um mar de papel que vai tomando conta de tudo, trepando pelas paredes, ocupando mesas, engrossando pastas. A aldeia de papel acaba por nos ocupar a casa.

Deitei-me às seis da manhã, já o sol brilhava. Foram dezoito horas de arrumação, concatenação de séries documentais, indexação e ordenamento cronológico das duas mil páginas de notas realizadas ao longo de dois anos. Foram duzentos e trinta e quatro livros, trezentos e setenta e dois documentos de arquivo, oitenta imagens e quarenta mapas. O tema que aqui me trouxe - as relações entre o Sião e Portugal (1782-1939) - queimou-me a vista. Dizia-se à boca cheia que tudo estava esgotado, que a documentação sobre o assunto fora há muito localizada. Ora, em Ciências Humanas, como em qualquer outra, não há temas esgotados. Encontrei nestes últimos meses vinte vezes mais documentação que aquela a que me habituara nos tais textos obrigatórios. Em Lisboa, em Banguecoque, em Macau e Phnom Penh, milhares de páginas aguardavam quem as lesse, as interpretasse e voltasse a dar vida.


Sei que para muitos tudo isto é coisa pequena, pois a opinião é inimiga figadal do estudo, o improviso irreconciliável adversário do método. O trabalho científico parte de suposições e corrige-se empiricamente no processo de acareação de fontes. Agora que se aproxima o início da redacção do tal livrinho que prometo para 2011, um imprevisto: descobri mais umas centenas de documentos de arquivo onde menos eseprava: na arrecadação de uma Secretaria de Estado. Retomar o trabalho, rever as incongruências, comparar notas feitas. Os campos de papel a que me submeti pedem mais trabalho !

5 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

"Está tudo visto e lido!", eis a palavra de ordem dos donos do saber que do alto das sinecuras acrescentam em surdina: "não vale ultrapassar".

Sabes como é.

adsensum disse...

Duvido que alguém possa apelidar esse louvável trabalho de "coisa pequena", Miguel.
Contacto com profissionais que, também de forma aguerrida, desempenham funções na área de Biblioteca e Documentação e reconheço que lidam com verdadeiras epopeias! Por isso, posso imaginar que, a acrescer, a componente de investigação científica do Miguel deve ser viciante e, como diz, interminável.
Admiro-o muito.
Eu ficaria, por certo e de imediato, doente caso não utilizasse barreiras físicas adequadas porque os bichinhos da prata e quejandos causam-me uma tal alergia...

Euro-Ultramarino disse...

Duvido muito que da sua pena saia um "livrinho"... Se, para quem tem talento natural para a escrita - como o Miguel - a tarefa é um sacrifício, imagine-se o que é para o comum. Há um par de anos que ando a "lutar" com uma tese, literalmente naufragado num mar revolto de papelada sem fim. Entretanto, aguardarei, ansioso, os frutos impresos do seu trabalho.
Abrazo porteñno.

cristina ribeiro disse...

Cá o esperamos, sabendo que por detrás de cada palavra estarão, por certo, muitos momentos de suor, mas também de alegrias : as que se sentem quando conseguimos fazer aquilo de que gostamos.

Cláudia [ACV] disse...

Em escala bem mais modesta, identifico-me com o esforço sobre o qual aqui reflecte, Miguel. Daqui lhe envio sinceros votos de temperança, presença de espírito e saúde para as próximas etapas do seu trabalho.