23 dezembro 2009

Bonnie & Clyde Ceausescu, assassinados no dia de Natal*

Muito se escreveu nestes dias sobre Nicolai e Elena. Tiveram uma terrível e maravilhosa vida. Ele, um pobre sapateiro rural de origem cigana, ela uma costureira quase iletrada. Ele comandou, foi incensado como o Danúbio do Socialismo, o Leão dos Cárpatos, Herói da Pátria; ela fez-se Cientista de Renome Internacional, Física Prodigiosa, Mãe dos Romenos. Adulados a extremos, acreditaram no conto de fadas em que viveram, um mundo mágico de palácios forrados em teca, espelhos e candelabros de Morano, pavimentos em mármore de Carrara, maçanetas em ouro. Duas criaturas insignificantes. Ele gago, mal sabendo compor uma frase, com discursos corrigidos pelos mestres da propaganda, sem jamais ter lido um livro, foi agraciado pelas academias do Leste e do Ocidente, recebido em todas as capitais, partilhou banquetes com reis, recebeu deputações de todos os azimutes. Ela, laureada com honoris causa em mil e uma universidades, nunca compreendeu exactamente o que era uma tabela e não obstante ter recebido lições para melhor ludibriar a inconsistente fraude, era uma obsoluta nulidade. Diziam os seus professores que adormecia, que se levantava e abandonava sem palavra as aulas, que copiava sem pudor. Madame CO2, como era referida pelos romenos, lembra uma daquelas vilãs da história antiga, uma aventureira que atingiu a púrpura imperial. O casal Ceausescu não tira nem nada acrescenta aos tiranos comunistas que se alçaram ao poder de vida e morte sobre milhões. São, ambos, produto de um tempo e a cabal demonstração que a "classe operária" no poder é a maior inimiga da classe operária e dos pobres.

Como Bonnie and Clyde, assinaram um pacto de sangue que os levou aos píncaros e depois os precipitou no abismo. Mas tiveram um fim heróico e não se amedrontaram perante aquela farsa de tribunal improvisado por traidores, cúmplices de véspera - os que mataram, torturaram e levaram o povo romeno à fome - e que, mudados os tempos, queriam embarcar no novo amanhã cantante da democracia e da Europa. Talvez, a grande nota de grandeza que os dois deixaram foi o derradeiro pedido aos algozes: "nós temos o direito de morrer juntos". É evidente que o golpe não foi a revolução que por aí se diz. Foi um típico golpe mafioso que partiu de dentro do Partido Comunista para salvar a nomenclatura. Provas ? Uma só: ninguém se lembra de matar no dia do Natal. Só os comunistas.
A Roménia, pelo que se diz, mudou muito pouco desde 1989. Continua nas mãos dos ex-PCR's e dos ex-Securitate. No tempo de Bonnie and Clyde, a Roménia figurava no mapa das relações internacionais. Hoje, figura nas listas dos observatórios contra o crime mafioso, o tráfico de drogas e de carne branca. Nem tudo é negro, nem tudo é branco. Nicolai e Elena morreram, literalmente, sobre a sua fortuna e sobre a sua desgraça e o seu infame fim só deslustra a Roménia.


Partidul, Ceausescu, Romania

* A Roménia, maioritariamente ortodoxa, não se rege pelo calendário gregoriano, mas conta com certa de 5% de católicos e 5% de protestantes.

8 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Finalmente, um texto sobre os Ceausescus que faz todo o sentido.

Isabel Metello disse...

Miguel, "quem com ferros mata com ferros morre", não será assim a lei da vida? Tudo o que projectamos para o universo é-nos devolvido na mesma proporção, em jeito de boomerang inexorável. Dois criminosos foram mortos por outros criminosos...será injusto? Não creio- penso mais na injustiça cometida sobre aquelas crianças que eram depositadas, violentadas e torturadas nos célebres reformatórios romenos, enquanto estes boçais se banhavam pela água evacuada por torneiras em ouro...aí, sim, a minha alma sofre, compadece-se e revolta-se! Quanto à nobreza de quererem morrer juntos, o Mal puro é arrogante perante a morte e o sofrimento, e, não raro, mostra-se à altura do acontecimento...
Queira desculpar-me, mas são mais dois seres, para juntar à colecção de verdadeiros monstros que a História (des)humana produziu (tantos, Meu Deus!), que sofreram na pele o mal que provocaram nos outros. Claro está por Decreto Divino, que a Lei de Talião Deve por Deus, e não pelos homens, ser aplicada! Acontece que os homens são os seus meros instrumentos il y a des foix que...


Mas, vim aqui visitá-lo propositadamente para lhe desejar um Santo Natal. Abç grande!

Liceu Aristotélico disse...

Caro Miguel,

Aqui vai um presente natalício: liceu-aristotelico@blogspot.com

Um Abraço do Miguel Bruno Duarte

Pedro Leite Ribeiro disse...

Feliz Natal, Miguel, e um bom 2010!

Bic Laranja disse...

Feliz Natal!
:)

Lura do Grilo disse...

A Madame Ceausescu foi autora de uma formidável dieta científica que manteve o povo no limiar da fome.

Tenho contactado alguns romenos jovens que vão ouvindo dos pais e avós:
- Um individuo foi preso por ter proferido palavras contra o governo. Nunca soube quem inventou essa mentira até sair, dezenas de anos depois, do campo de concentração e terem aberto os arquivos da polícia política. Tinha sido a própria esposa.

- As extraordinárias decisões económicas! Um ano para produzir aço, outro para cereais, etc.

Julgo que as coisas estão a melhorar pela Roménia mas muito devagar. Fiquei com muito boa impressão das pessoas que conheci. Tinham consciência da reputação indesejável trazida por alguns gangues de romenos que operam pelo Europa.

Um Bom Natal

José M. Barbosa disse...

Subscrevo o que o seu irmão disse.
Não sei se o Miguel está por cá ou por lá e embora deteste "empastelar" blogs de comentários, queria deixar-lhe os meus votos de uma quadra feliz.

Um abraço,

José Manuel.

Carla Teixeira disse...

Ótimo texto!
Feliz Natal e um próspero 2010.
Abraços
Carla