03 novembro 2009

Parvalhização ou o fim da dignidade popular

O fenómeno é global. Onde o dedo de Midas toca, os homens perdem o talante, esbate-se a hierarquia natural, anula-se a sede do sobrenatural, do sublime e do indizível e impõe-se, soberana, cheia de direitos, reivindicações e caprichos, a massa dos estômagos sobre duas pernas [e quatro rodas] em busca de conforto e abundância. O mundo transforma-se lentamente num bazar de peraltas engalanados e ajaezados, mesmerizados pelo dinheiro, pelos negócios e pelo lucro. Há quem diga que é o triunfo do Ocidente. Não, é o triunfo da civilização do pior capitalismo e da burguesia desmiolada e manienta. Onde antes havia camponeses e artífices, o povo chão com raízes profundas entrelaçadas na terra, hoje há canalha suburbana e iletrada com poder, sentada atrás de computadores, esbracejando nas bolsas, promovendo e vendendo necessidades artificiais. Onde antes havia elites históricas, hoje há uns cavalheiros e umas cavalheiras absolutamente privados do sentido do sacrifício, macaqueando as boas e velhas aristocracia de serviço e a burguesia do risco e da iniciativa. O fenómeno da dissolução das ordens sociais e das classes é hoje assunto encerrado. Já não há qualquer diferença entre o arrumador de cinema e o ministro, pois qualquer ministro é hoje, sem tirar, igual a qualquer arrumador de cinema. A horizontalização provocou, sem mais, a morte das letras e das artes, o crepúsculo do pensamento e o embotamento da inteligência.


Não sendo propriamente um reaccionário, não posso deixar de reconhecer que no transcurso da minha vida assisti ao irrefreável fenómeno da parvalhização e ao enterro das virtudes populares. Lembro-me, ainda, do tempo em que havia povo, cultura popular, valores populares e até uma etiqueta própria dessa gente sofrida e humilde, de coragem digna de respeito. Tudo isso desapareceu. Permaneci durante anos no Baixo Alentejo, servindo num regimento de infantaria. Como comandante de pelotão, palmilhei centenas de quilómetros de bornal e mochila às costas em longas marchas pelas planícies alentejanas. Lembro-me, como se fosse hoje, do encanto dessa gente serena e franca que nos recebia como se de familiares se tratasse, connosco dividiam o seu pão, o seu queijo e leite. Era um povo de porte nobre, com uma proverbial capacidade para fazer cultura sem o artifício do cânone coroado pelas academias. Temo que esse povo desapareceu, tragado no ambiente dos arrabaldes de Lisboa, futebolizado, telenovelizado, carrefourizado, city-banquizado, mecanizado e endividado na voragem da tentação de ter. Lembro-me do tempo em que os portugueses eram, quase todos(as), gente seca de carnações, de postura direita e natural e portadores de especial dom para a expansão de afectos e ideias através de construções frásicas e vocabulário cheio de graça. Era um encanto ouvir um rude trabalhador rural discretear sobre o sentido da vida e da morte. A parvalhização acabou com isso. Hoje quase só vejo gente violenta, respondona, invejosa e recalcada, gorda como sacos, apostrofando, difamando ou opinando sobre coisas que o natural defeso da inteligência e da humildade outrora reservava àqueles que se haviam consagrado ao silencioso mundo dos livros.


Parece que tudo começou nos anos sessenta. Depois, foi uma cavalgada sem freio. Os dez anos de Cavaco foram uma verdadeira hecatombe, um etnocídio que destruiu o que de melhor havia no nosso povo. Lembram-se do desprezo votado aos trabalhos braçais, da galopante marcha dos empreendedoristas, dos novos tudo-e-mais-alguma-coisa, do fim dos pescadores e dos ofícios, do encerramento do comércio que dava dignidade e percepção de responsabilidade política aos pequenos proprietários, da substituição dos operários, dos cantoneiros e pedreiros, dos electricistas e canalizadores por uma chusma de patetas metidos em fatecos a brincar aos programadores, aos promotores de vendas e aos bancários ?


Pois, se assim foi em Portugal, assisto ao mesmo fenómeno nesta bela Tailândia. Estive alguns dias no Camboja e tenho, com alguma frequência saído da grande cidade e visitado as vilas, cidadezinhas e aldeias de província. Em Banguecoque, o sorriso que conhecera nos anos 90 anteriores a Thaksin está em risco de desaparecer. As pessoas mostram semblante carregado, evitam o olhar, estão imersas em problemas que a miragem do "desenvolvimento", do "progresso" e do "crescimento" - como detesto tudo isso - lhes trouxeram. Os tailandeses urbanos, como os singapurianos, os taiwaneses, os japoneses e os sul-coreanos, estão em risco de se transformarem em patetas iguais aos norte-americanos. Lendo Lafcadio Hearn ou o nosso Venceslau, compreendo finalmente a revolta que levou Mishima ao suicídio. O Japão de outrora teria sido - digo-o sem mácula de orientalismo - uma nação de artistas. Hoje, são milhões de formigas pagando com stress, depressão e angústia o preço da especialização no "mundo moderno". Compreendo, finalmente, a justeza daqueles que aqui na Tailândia, tentam travar a deriva mortal para o tipo de sociedade que no Ocidente nos transformou naquilo que somos. Compreendo, finalmente, o que o anti-ocidentalismo quer dizer nesta terra.

9 comentários:

Mr.pmDias disse...

Mas será o "desenvolvimento", "progresso" e "crescimento" assim tão maus?
Tudo começou nos anos 70... pois foi, ainda me lembro de levar 6 horas para chegar à terra dos meus avós e hoje, eles até estão iguais, genuínos e de porte nobre, mas demoro 1h20.
Escrevo-te esta mensagem a 10000km de distancia e não demora mais do que instantes a chegar até ti... até ao mundo. Graças aos patetas metidos em fatecos. Foste e vieste do Cambodja, e com certeza não demoraste mais de 3h a fazer a viagem.
Progresso e riqueza estão directamente ligados!
Conseguias imaginar a Tailândia se não tivesse o dinheiro que os turistas ocidentais aí vão deixar?

Combustões disse...

Bem, o PM Dias tira-me as palavras da boca. Agradeço por situar a questão no campo que abomino. Digo-o sem reservas: o turismo e a amálgama, tão aplaudidas, são dois desastres tremendos. Quem me dera que não existissem. Se quer saber a minha opinião sobre o progresso, esse mito velho e agressivo que destruiu o planeta em menos de duzentos anos, respondo: antes a carroça que o Mercedes, de preferência descapotável e vermelho; antes a carta que o telemóvel; antes o viajante que o turista; a cultura que o espectáculo; o livro que o CD-ROM. E por aí me alongaria até o comentário ser recusado pele limite imposto pela "capacidade de storização" do operador.

Fábrica de Letras disse...

O desafio da Fábrica de Letras está lançado!
Para o mês de Novembro, o tema será "Preto e Branco".
Para participar basta escrever um texto sobre o tema proposto e inscrever-se no link que estará à disposição no nosso blog, no dia 15 deste mês.
Podem ser usados textos,poemas, contos, fotos ou vídeos.
Participa, divulga!

Carlos disse...

Caro Miguel:

Concordo plenamente com o que diz; mais, trocaria de muito bom grado as 6 ou 8 horas que levava até à casa de férias dos meus Pais, na serra da Lousã, através de estradas cheias de curvas mas cujas paisagens me ficaram na alma, ou as 4 horas que levava a chegar à vila no Baixo Alentejo onde uma minha Avó tinha um solar (fiz essas estradas muitas e muitas vezes, de moto e de carro), do que as duas ou uma e meia das actuais auto-estradas, sem qualquer interesse paisagístico, monótonas e cheias de armadilhas legais e ilegais.

Tirou-se o encanto e o sossego, destruiu-se o que era autêntico e rico, para o substituir por um «modernismo» aberrante, acéfalo, inculto e - principalmente - muito feio. Se isto é progresso, passo muito bem sem ele.

Porque, afinal, para além do computador, tanto o telemóvel, a televisão a cores e outros gadgets não passam disso mesmo - de objectos de utilidade forçada por uma sociedade decadente que os quis tornar essenciais.

E ainda conservo, com muito amor, a biblioteca de 15.000 volumes dos meus Pais, à qual eu e a minha mulher acrescentámos mais uns milhares. É que o livro não é volátil como a informação digitalizada, não é alterável ao sabor de gostos, modas ou censuras. O livro é um dos verdadeiros progressos da Humanidade.

Um grande abraço e muitos parabéns pelo excelente postal.

Nuno Castelo-Branco disse...

É possível o desenvolvimento sem uma certa ideia de "progresso". Quantos quilómetros de auto-estradas tem a Suécia? Em contrapartida, quantas bibliotecas, orquestras, salas de espectáculo, associações históricas existem naquele longínquo país? Diz-se que esse progresso feito à base de pó de cimento compactado, acarreta em contrapartida, tudo aquilo que liquida uma sociedade saudável: chama a corrupção de todos os tráficos, incompatibiliza o agente político com o interesse geral, e tenta moldar um povo ao tal mundo global que se resume a bem pouco.
Bem te avisei! A Tailândia de 2001, a última vez que aí estive, já não parecia a mesma de 1996 e muito menos ainda, o antigo, pacífico, progressivo e ordeiro Sião de 1989. Não penses que vai ficar por aí. O alvo essencial está à vista de todos: a própria monarquia, o derradeiro dique que impedirá uma "indonesiação" do país.

Carlos Velasco disse...

A tal economia moderna na qual embarcou toda a presente geração é como uma pirâmide.
Apesar das falas acerca de um tal de livre-mercado, o que se vê são oligopólios e monopólios a tomar conta de tudo.
Do monopólio da emissão monetária ao incentivo ao endividamento privado foi um passo.
Venderam todos as terrinhas dos seus pais, quando não as simplesmente abandonaram, para comprar carrinhos e se tornarem orgulhosos proprietários de hipotecas. Mas mais importante do que ser bem sucedido, é aparentar sucesso material.
E depois ainda fingem consternação quando ouvem falar de doutores que investem em esquemas piramidais. Acabarão todos na escravatura por causa da cegueira materialista.

Avaritia facit Bardus.

Mr.pmDias disse...

Boas.
Custa-me a acreditar que pensas dessa forma!
A evolução e o progresso são feitos de erros e de grandes vitorias. Cabe a nós escolher o que de melhor tem o progresso e ignorar o que de pior tem.

Por exemplo, custa-me ler o que o que o caro Carlos escreveu, então não é que as estradas de curvas e mais curvas continuam lá (e provavelmente com menos buracos e camiões) e as suas paisagens inesquecíveis também. O caro Carlos é que "prefere" ir na auto-estrada.

Caro Miguel, a carta não desapareceu, o viajante também não, os meus avós teem ainda uma carroça e um belo burro. A diferença está que eu chego aos meus avós em 1h30 porque quero, e vou de mercedes (não é vermelho) porque assim escolhi. Mas podia muito bem ir no velho Intercidades até ao Entrocamento e depois trocar de automotora e percorrer a linda linha que vai até Castelo Branco.

Na minha opinião, são tudo escolhas nossas. Dizer que foi o "progresso" que estragou não me faz sentido nenhum. Até mesmo a carroça foi um grande salto em frente! É que afinal tem DUAS rodas. Como seria o mundo sem roda? Sem fogo? Sem luz... a partir de quando o progresso foi mau?

Bom, já estou a ultrapassar os limites "normais" de um comentário. Não insisto mais, sem bem que deves ter uma boa resposta :)

P.S: Parabéns pelos textos e pelo blog.

Abraço.

JNAS disse...

...
Combustões no seu melhor. Só não percebo porque razão afirma, com ironia, não ser "reaccionário"!
...
Se me é permitido faltou aqui referir o cancro de uma sociedade de rendimento mínimo. Nos Açores essa desgraça alastra e é responsável pela erosão do nosso acervo como "povo". Em termos antropológicos evoluiram todos para um modelo americanizado ao estilo porno-lupanar. Cueca de fio dental à vista e sob uma tattoo "étnica" ao estilo de tramp tag. Eles de boné virado ao contrário e piercing na testa ou na língua. Uma lástima esta parvónia que é o Portugal de hoje
JNAS

Levy disse...

Se o Miguel aturasse essa pandilha na escola, tenho a certeza que a descrição que fez no texto ainda seria mais negra.
Quando leio o que escreve, sinto-me um pouco reconfortado por saber que há quem perceba e veja como eu.
Não é nada fácil viver no meio disto.