01 novembro 2009

O triunfo da habitualidade

Duas gerações tragadas pela violência, dois milhões de mortos e outro milhão de refugiados, mais meio milhão estropiado por minas anti-pessoais. O Camboja pagou o duro preço que os interesses globais reclamaram no acerto de esferas de influência desenhadas em Ialta. O Sudeste-asiático, com o seu crisól de conflitos localizados, foi a mais penosa evidência do desmoronar dos sonhos de que se alimentou a vaga independentista no imediato pós-guerra. Aqui motou-se em nome do Mundo Livre e do Socialismo, aqui morreu, sem apelo, a possibilidade de retorno ao status quo ante-colonial.

Ontem, feriado nacional, festa natalícia do Príncipe Shianouk, percorri a avenida ribeirinha de Phenom Penh. Milhares de famílias passeando-se ao longo das margens do Mécongue, crianças rindo-se estridentemente, umas comendo gelados, outras jogando com brinquedos made-in-China. Se a vida é difícil, as preocupações são mais prosaicas. Já não se ouvem as sirenes anunciando a aproximação dos B-52, eclipsou-se o medo infundido pela aproximação dos guerrilheiros comunistas.

As pessoas raramente se cruzam com "barangue" (estrangeiros). Olham-me com curiosidade e de imediato rasgam um sorriso de orelha a orelha. Alguns pedem-me que tire uma foto com os filhos. As crianças são pequenos bonecos; dir-se-ia tiradas de biscuit de porcelana. Sinto-me, como na Tailândia, absolutamente em casa.

Para acentuar a sensação de estar perto de tudo aquilo que me trouxe a esta parte do mundo, orgulhosa e drapejando ao vento, uma grande bandeira portuguesa lembra-me que a nossa casa é onde nos sentimos bem. Saloth Sar (Pol Pot) morreu. O futuro vai nascendo, segundo a segundo, diante dos meus olhos. Aqui não venceram nem as abstracções do capitalismo, nem as letais Utopias. Aqui venceram as pessoas.

1 comentário:

Lura do Grilo disse...

Maravilhosas estas crianças! No que se podem tornar quando volvem não crianças