04 novembro 2009

A minha geração, a que não deu em nada


Usando uma expressão cara ao João, também sou tremedista, irreparavelmente lúcido; logo, incurável pessimista. Vi de tudo ao longo da vida, engoli seco os maiores insultos, assisti às mais reles manifestações de que a mediocridade despeitada se serve, tive de obedecer aos mais refinados poltrões e fingir que me enganava ao tomar essas árvores pela floresta. Essa foi a sina da minha geração, apanhada entre uma geração que tudo quis destruir para enriquecer e outra que, privada de todas as referências, pratica inocentemente crimes e se vangloria por coisas que não merecem um palito.

Lembro-me do tempo em havia futuro e se pensava que à noite se seguia o dia, que uma inteligência oculta e justiceira se encarregaria de dar sentido ao tempo, premiar o valor e condenar e maldade. Tudo isso desapareceu. Ficámos, eu e a minha geração, agarrados a teorias sem ponto de aplicação, à ideia de um Portugal com glória e luz de que todos, afinal, se riem, a um comedimento inibidor - chamar-lhe-ia uma discreta elegância - que a geração que nos precedeu tomou por cobardia e que a geração que nos sucedeu interpreta como quixotismo.

Assusta-me a possibilidade que tanta devastação e tanto trepadorismo alvar tenham mudado o meu país ao ponto do não regresso, que estamos condenados, eu e a minha geração, a imaginar um Portugal que já não existe e viver cercados por gente que já não fala a nossa língua. A minha geração não produziu ninguém que se impusesse. Os da nossa idade [mas não os da nossa geração] que ganharam as palmas não passam de factotums e habilidosos dispostos a todas as curvaturas de espinha, a toda a sorte de cumplicidades e golpes. É ver-lhes a insegurança nos olhos, o falar postiço, as frases vazias, a chuva de valores num deserto de convicções. É sentir-lhes inautenticidade na importância com que falam de carreiras sem currículo, de prosápia que não sabe compor e assinar por baixo um texto. É vê-los, de faca em riste, barricados nas suas sinecuras que todos pagamos, aterrorizados com a ideia que alguém um dia os venha desalojar.


...e mais isto !

A nossa geração embriagou-se a fazer malha e despertou tarde de mais – se é que despertou – da sua suma irrelevância, insignificância, errância, improdutividade, descaracterização? Se o fez é porque não saiu das baias que lhe foram indicadas pelas gerações precedentes, que julgaram entrever uma promessazinha de Sol se se fizesse o frete colectivo de se abandonar o Ultramar e de se genuflectir diante da cornucópia virtual da Europa, fossem quais fossem as consequências ou as facturas para os que viessem a seguir. Nessas estreitas baias relinchamos e escoiceamos desde então, e dedicamos alguns sentimentos nobres à vanglória do palito, a única que nos resta, e mesmo essa desproporcionada, que o país deixou de valer um palito.



Monica, composta por SM Rei Sihanouk

2 comentários:

Manuel Brás disse...

Num deserto de convicções
inundado de inautenticidade
emergem as vis aberrações
convencidas da sua falsidade.

De espinhas curvadas
e olhares periclitantes,
são posturas avivadas
por prosápias irritantes.

De um regime polvilhado
por negociatas imorais,
emerge um país retalhado
de patologias viscerais.

O futuro hipotecado
por tanto parasitismo,
neste país atarracado
impera o pedantismo.

A bomba pode rebentar
a qualquer momento,
tal tem sido o desbaratar
do nosso deslumbramento!

Carlos disse...

Meu caro Miguel, que assim o trato por sermos irmãos da mesma geração,

Esqueça a distância que nos separa e faça o favor de acolher o meu grande abraço solidário.

Saiba que, mesmo estando só em plaga distante, nunca estará sozinho. Aliás, essas paragens só são distantes para quem não as entende. Para muitos de nós e no nosso espírito continuam mais perto do que Badajoz.

Obrigado Miguel.
Seremos sempre livres porque o nosso Rei é livre!