26 novembro 2009

Era o que faltava o Estado legislar sobre a vida, o amor e a felicidade


No seguimento de um texto que aqui assinámos sobre a direita, o nosso Corcunda publicou na sua tribuna réplica, lida com a maior atenção. Ora, um outro confrade da blogosfera, igualmente merecedor do melhor crédito, respondeu-me (v. comments) e enumerou questõs que estimo relevantes e oportunas, como outra coisa não seria de esperar do Afonso Miguel. Da minha tréplica, aqui fica transcrição integral.

***

"O caro Afonso Miguel - que leio sempre com o maior proveito e interesse - infelizmente não vive numa monarquia. Ora, eu vivo e sei que da simples existência da coroa decorre uma cascata de comportamentos que são por ela inspirados. José Maria Pemán escreveu que no dia seguinte à implantação da república em Espanha, foi ao jardim do palácio real e encontrou dezenas de fulanas vendendo-se no peripatos. Se ao invés de nos deliciarmos com justificações de natureza transcendente, nos abeirarmos da sociologia das instituições e da psicologia política, talvez sejamos capazes de explicar a necessidade de uma restauração portuguesa, que tem de ser monárquica. O Afonso Miguel sabe, também, que nacionalismo e monarquia foram, em boa verdade, coisas diferentes; diria que na sua génese foram opostas, posto que o nacionalismo se fundava numa idealização da nação (Schmidt, para não citar autores cosmopolitas)e logo requereu a existência de um Estado que reproduzisse (por inculcação e integração) uma certa ideia de nação. Em boa verdade, esse nacionalismo foi uma escola literária. Ora, a monarquia não é uma ideologia política e é, em todo o lado onde subsiste, forte elemento moderador e agente promotor de consenso. Por consenso entendo a preservação do mínimo político que torna possível a existência de uma comunidade política organizada em Estado. O Afonso Miguel terá de me explicar o que é Portugal, pois tenho para mim que muito do que se diz em nome do nacionalismo contraria, afinal, a ideia que eu tenho de Portugal. Talvez me engane, mas o "nacionalismo português" é ou tem sido, desde finais do século XIX, um dos principais agentes de descaracterização nacional, sempre a reboque das últimas novidades de Paris, Berlim ou Roma. A última deriva deu no que deu e disso não quero falar.Se o caro Afonso Miguel ler o que escrevi (faça-o sem reflexo condicionado) deduzirá o seguinte: a direita, amiúde incapaz de pensar, atira-se a todas as causas menores como touro a pano vermelho. Ou não pensa o Afonso Miguel que tanto frenesi sobre assuntos que não podem ser referendados nem atirados à massa como aprisco esconde, afinal, a inteligente capacidade do regime em entreter, divertir e esgotar o calendário, evitando que questões bem mais relevantes sejam colocadas ?Se o sim-sim, não-não a que alude for arrimo da existência individual, estou plenamente de acordo. Contudo, a luta política não se reduz à soma dos indivíduos que nela participam. Diria mesmo que é quase estranha aos indivíduos e que possuiu força de inércia e coerência à qual um homem não pode fazer frente. Quando tal acontece, lavra o testemunho da sua exclusão. Foi o que eu quis dizer, talvez de forma atabalhoada. Participar na vida política implica, pois, fazer cedências, saber o que se passa e que questões são relevantes, escolhendo aquelas onde reside o interesse de Portugal. O interesse de Portugal está, à cabeça, no entendimento que devemos ter da sua história e da sua singularidade."

Miguel Castelo Branco

Sem comentários: