23 novembro 2009

A direita ibérica


Uma certa direita ibérica especializou-se na defesa de todas as causas menores que julga indiscutíveis; logo, auto-excluiu-se do debate político, perdeu direito de cidadania e remeteu-se para o orgulhoso, mudo e casmurro pequeno mundo onde se repetem à exaustão os mesmos argumentos sem nunca lhes aquilatar o eco, recepção ou mesmo a pertinência. O debate político requer flexibilidade, capacidade para compreender o que os outros querem e nós não queremos, exige risco sem aventura, temeridade sem quixotismo, pelo que quem nele não participa está condenado a assistir ao cortejo dos acontecimentos sem neles poder intervir. Alguma direita ibérica tem sido, desde 1820, a maior inimiga dos "valores de conservação", pois opondo-se a tudo, nada pode corrigir, atenuar ou estacar. Foi contrária a qualquer arremedo de texto constitucional, mesmo que em forma de Carta; foi contrária à separação, mesmo que essa separação fosse selada por um compromisso concordatário que libertasse a Igreja de funções bem pouco religiosas e lhe destinasse um lugar destacado enquanto vector da educação e com plena liberdade de acção na missionação ultramarina; foi contrária à monarquia liberal, abrindo as portas à república; foi absolutamente intransigente na abertura dos regimes autoritários num momento em que era possível uma transição que ela [a direita ibérica] poderia controloar; foi totalmente insensível ao problema da anulação civil do matrimónio, como o foi ao tema das autonomias regionais, da adesão à CEE e do serviço militar obrigatório. Ultimamente, já privada de qualquer arrimo, deixou-se enredar nas polémicas moralonas sobre a interrupção da gravidez, da liberalização das drogas e das uniões de facto, questões sem cor política e merecedoras de uma longa e sempre útil discussão em sedes outras que não a tribuna jornalística, os comícios e os referendos, onde o ruído da rua, irracional e sempre exaltado, acaba por vencer.

Fosse esta direita ibérica e ainda se discutiriam os benefícios da escravatura, da pena de morte e da tortura, dos autos-de-fé e da censura, a Inquisição, o celibato das enfermeiras e das professoras primárias, o morgadio, a bastardia de jure e outros temas que hoje estão remetidos para os arquivos históricos. A direita ibérica vive fora de tudo e impressiona-se pelo acessório, pelo que o fundamental passa-lhe ao largo. Ainda não compreenderam que é preferível a monarquia - qualquer monarquia - à mais elaborada república, que é preferível ensinar-se o latim nas escolas que vez de combater o comunismo, que não deve diabolizar causas enterradas como a descolonização e a "independência do Brasil", mas sim aderir a uma ideia de fraternidade lusíada fundada em soluções factíveis, que pode aperfeiçoar o sistema representativo, enxertando-lhe outras formas de representação especializada - chamem-lhe corporativas ou medievais - sem contudo se opor à democracia, que a defesa da vida é um combate generoso por aqueles que não têm voz para se opor à cultura da morte, que se deve lutar pelo direito à felicidade e ao amor sem encontrar cabeças de turco. E assim me estenderia por páginas. Mas não, a direita ibérica só se inflama com sexo e nestas questões cumpre à justa o que os adversários lhe pedem: que seja moralona à perliquiteques, que diga aquilo que aos mais educados e inteligente surja como acabadas e rematadas patetices; em suma, que seja o boneco perfeito da estupidez, muitas vezes maldosa, o advogado do diabo e a caricatura da coerência. Sendo contra tudo, acaba por perder em todas as batalhas, recontros e escaramuças. A direita ibérica é como a caricatura de Lola Montéz: carrega às costas, vitoriosas, as ideias que diz combater.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Apenas acrescentaria que a nossa direita sofre da lembrança da Petronilha, uma das amantes de D. João V. O que a preocupa, é a garantia das 50 mulas carregadas de presentes, na hora da partida. Não vale um tostão furado.

João Mattos e Silva disse...

Se soubesse escrever com esta elegância, teria escrito e assinado este post, tal a concordância. Muito bem!

Rafael Castela Santos disse...

Querido Miguel:

Aún desde la profunda discrepancia con Vd. (no soy partidario de la Monarquía liberal, sino de la Monarquía templada y tradicional; no creo en el divorcio ni de los matrimonios civiles, como los viejos romanos, etc.), mutando mutandis su invectiva contra la "derecha ibérica" que Vd. aplica a la (llamada) derecha portuguesa cabe aplicarse también a la autodenominada derecha española.
Me parece que las derechas europeas, en general, no tienen un proyecto político porque como mucho son tecnócratas. Y eso en el mejor de los casos. A veces, como el caso de ciertos políticos españoles (p. ej., Gallardón, el Alcalde de Madrid) son simplemente socialistas disfrazados de derechistas.
Y de estos hay cada vez más.
En el fondo todos son socialistas, unos de derecha, otros de izquierda. Pero socialistas todos.
Una vez más le felicito por su bitácora, que es siempre un soplo de aire fresco.
Un cordial saludo,

Rafael Castela Santos