18 novembro 2009

Da cultura e do cosmopolitismo

Richard Zimmler diz que encontrou um Portugal quase medieval, fechado e bisonho, quando no Porto desembarcou em 1980. Passaram vinte e nove anos e confessa ainda não escrever em português, nem tão pouco se interessar pela literatura portuguesa. Estranha contradição a deste nosso concidadão - possui nacionalidade portuguesa - que lamenta não receber convites do Ministério da Cultura, pois considera-se, ele também, um escritor português. Lembro que as duas obras de Zimmler versam temas que são, por si, a assunção da sua auto-exclusão: o Cabalista de Lisboa e, recentemente, Os Anagramas de Varsóvia. No fundo, as críticas que faz aos judeus e à sua absoluta incapacidade para compreenderem as lições da história, aplicam-se, sem tirar, ao nosso Zimmler.

Ora, eu estou num país estrangeiro, cuja nacionalidade não quero nem pedirei, mas faço o sacrifício diário de falar a língua deste país. É esta a diferença entre o português e a generalidade dos estrangeiros, sobretudos aqueles que entendem o inglês como um Esperanto. Ficam sempre de fora, incapazes de comunicar com o povo entre o qual vivem, condenados à leitura dos jornais locais em língua inglesa - que só dizem aquilo que o estrangeiro auto-segregado quer ler - e reduzidos a locais onde se falam o inglês. É o fado do gueto: viver numa sociedade sem a compreender e ter como interlocutores meia dúzia de pessoas que mentem sistematicamente por delicadeza. Aprendi-o com os alemães: dizem em inglês aquilo que julgam compaginar com uma certa ideia de bom-senso e dizem em alemão aquilo que pensam. O cosmopolita não é cidadão de pátria alguma. Finge que está integrado, mas ao chegar ao supermercado não sabe pedir à empregada da frutaria um simples alperce.

6 comentários:

cristina ribeiro disse...

Estranha gente...
Neste domínio os portugueses sempre se " deram " mais.

adsensum disse...

"Alperce"? Isso é muito. Às tantas nem palavras mais simples pronunciam, talvez nem umas maçãs ou um pão possam pedir.
Não posso deixar de concordar consigo. Considero muito nobre a predisposição para aprender a língua do local onde nos encontramos.
Sinto que a língua é a cultura de um povo.
E quando o Miguel diz "sacrifício diário de falar a língua", sente-o assim verdadeiramente como um esforço que tem que fazer (pela dificuldade da língua propriamente dita)?
Ou foi maneira de falar?

Nuno Castelo-Branco disse...

Já conheci magotes de borra-botas desses. Um deles, até se atreveu a ir à entrevista para a concessão da nacionalidade e falando em inglês, disse ao interlocutor que em Portugal não precisava de falar português. Para nada.
Saiu danado e cometeu o erro de me aborrecer com isso. Limitei-me a dizer-lhe que na secretaria tinham feito muito bem. Era só o que faltava!

João Pedro disse...

Mas o Richard Zimmler fala português normalmente (eu já o ouvi). Será assim tão complicado escrever na mesma língua? Será a conjugação dos verbos? Mas então, também não saberia falar. Estranho.

José disse...

O mais engraçado é que tem que ser um país da idade média a publicar o seu primeiro romançe, pois os Estados Unidos recusaram-no 24 vezes.
Nunca digo isto, pois acho que a "blogolândia" não pode ser um escape para insultos, mas esse senhor que escolheu o "meu bairro" para viver, é um cretino.

Rui Moio disse...

Um texto que espelha bem a identidade do português de sempre: a plasticidade do homem português. Aquele Homem português que fez a História com "H grande" dos muitos "Portugais", que, de há seis séculos para cá, se espalham pelo Mundo todo.
Rui Moio