12 novembro 2009

Camboja e Tailândia, Thaksin e Hun Sen


Perguntava-me anteontem o meu pai através do telefone se eram fundamentadas as notícias alarmantes [e alarmistas] sobre a disputa entre a Tailândia e o Camboja poderem degenerar numa escalada conducente a um confronto militar entre os dois estados. Como aqui um dia dissemos, um conflito armado de grande intensidade está fora de causa, tamanha é a desproporção de meios e força entre os dois países. A ocorrer, o Camboja não poderia oferecer senão uma resistência simbólica, pois as Forças Armadas - terrestres, aéreas e navais - tailandesas são consideradas por todos os analistas as mais bem preparadas e apetrechadas da região, posto que os dispositivos militares do Vietname, Camboja e Laos ainda assentarem em tecnologia soviética e chinesa dos anos 60, estimada obsoleta.
A tensão entre a Tailândia e o Camboja expressa-se em níveis diferentes, com raízes profundas que remetem para a história do Sudeste-Asiático dos últimos três séculos, às quais se deve associar a delicada situação política interna cambojana contemporânea.


O Camboja e o Laos tal como hoje os entendemos nasceram de um artifício da política colonial francesa. Desde o início do século XIX o Camboja era um Estado vassalo do Sião, os seus príncipes eram educados em Banguecoque e, depois, ascendendo ao trono, eram confirmados pelo rei siamês. Tinham, coadjuvando-os, ministros nomeados pelo rei do Sião, não possuiam diplomacia autónoma nem podiam desenvolver iniciativas militares sem prévio assentimento de Banguecoque. Os reis Cambojanos sentiam-se integrados na politéia siamesa e eram reconhecidos pelos seus como reis. O poder regional que se opunha ao Sião era o actual Vietname. Aproveitando-se do colapso de Ayutthaya (1767), os vietnamitas iniciaram em finais do século XVIII um movimento expansionista para Sul que se saldou pela incorporação definitiva da Cochinchina e do Champá no seu império. Este movimento foi interrompido pela revolta dos irmãos Tay Són, que convulsionou o Vietname até 1802. Com a chamada restauração Nguyen, acentuou-se a expansão. O Champá, hoje no Vietname, fazia parte da esfera de influência cambojana e foi anexado à Cochinchina, província meridional do Vietname. Depois, nos anos 20 do século XIX, o Vietname invadiu o Camboja e quis transformá-lo numa província, impondo-lhe o modelo de governação, a língua e até o confucionismo como doutrina de Estado. Uma revolta khmér anti-vietnamita levou à intervenção siamesa. A guerra prolongou-se por quase trinta anos (1820-1850) e saldou-se pela reposição do status quo ante bellum, ou seja, ao retorno do "Camboja" à esfera siamesa.

A divergência entre o Vietname e o Camboja é profunda. O Vietname faz parte do Sudeste-Asiático sinizado - isto é, decalcado do modelo chinês - e o Camboja integra o conjunto de sociedades indianizadas, juntamente com o actual Laos, a Tailândia e a Birmânia. As relações entre o Camboja e a Tailândia são, pois, marcadas pela mesma mundivisão [antropológica, religiosa, institucional e política], pelo que a separá-los há muito pouco. O Vietname é tido como inimigo histórico irreconcilável, dada a distinta matriz e o desprezo que sempre exibiu perante o "bárbaro khmér".

Em 1863, os franceses exigiram ao rei Norodom I do Camboja a submissão ao plano de uma Indochina Francesa. O Rei mudou-se de Oudong para Phenom Phen e aí ficou às ordens de um Residente Superior francês. Os seus sucessores, Sisowath e Monivong, ficaram de tal forma manietados no exercício das suas funções que a sua autoridade se limitava à meia dúzia de acres do palácio real que os franceses lhes erigiram na nova capital.Lendo a correspondência secreta enviada por Norodom I aos reis Rama IV e Rama V do Sião, transparece uma profunda amargura, quase vergonha, pela situação em que os franceses o haviam colocado. Norodom I nunca se sentiu verdadeiramente um rei, pois não possuia nem a Regalia dos reis cambojanos, oferecida no acto da coroação pelo rei do Sião, nem recebera autorização para govenar no quadro da doutrina do poder régio das monarquias budistas da região.

Compreendemos agora por que razão Pol Pot e o seu Angkar cortaram relações com o Vietname e os motivos que ditaram alinhamentos distintos do Vietname comunista e do Camboja de Pol Pot no conflito ideológico que opunha Pequim e Moscovo durante os anos setenta e oitenta. O Vietname comunista alinhou com a URSS, enquanto o Kampuchea Democrático foi apoiado pela República Popular da China. Pol Pot argumentava, com alguma razão, que no quadro de revisão profunda a que se assistia em toda a região no ocaso da longa guerra entre os Vietnames [do Norte e do Sul], importaria estabelecer uma nova fronteira que confirmasse os direitos históricos do Camboja sobre algumas parcelas do território do extinto Vietname do Sul. Seguiu-se uma dura luta fronteiriça. Em 1979, o Vietname invadiu o Camboja e aí colocou um governo colaboracionista dirigido por dois dissidentes Khméres Vermelhos: Heng Samrin e Hun Sen. Por seu turno, a Tailândia e a China apoiaram a guerrilha que se opôs ao governo instituído por Hanói. A guerrilha era, como todos o sabem, dirigida por Pol Pot, agora "pró-ocidental" e pelo Príncipe Sihanouk, que residia em Pequim.


Com o fim da Guerra Fria, foi conseguido acordo sob a égide da Nações Unidas que viabilizou um governo de reconciliação nacional. Foi lavrada nova constituição, a monarquia foi restaurada e foi permitido a todos os contendores a conversão em partidos políticos. Nas eleições que se seguiram, o partido monárquico dirigido pelo Príncipe Norodom Ranariddh ganhou a maioria dos assentos. Os vietnamitas não viram com bons olhos a perda de influência sobre o Camboja e em 1997 instigaram um brutal golpe de Estado que culminou com um banho de sangue e a tomada do poder por Hun Sen, actual primeiro-ministro. Um ano volvido, Hun Sen decretou a realização de eleições consideradas fraudulentas pela generalidade dos observadores internacionais, declarando-se vencedor. Desde então, graças aos meios de condicionamento que lhe proporciona a posse do Estado, Hun Sen tem sido, como aqui o foi Thaksin na Tailândia, uma espécie de déspota benevolente. A capital encheu-se de palacetes, as fronteiras com a Tailândia converteram-se em zonas de jogo e o Camboja transformou-se no Eldorado das relocalizações da região. O Camboja, pese a crescente influência do Rei Sihamoni, sem poder mas senhor de grande popularidade, é uma selva para todos os plutocratas àvidos de lucro fácil. Hun Sen, ex-khmér vermelho, enriquece escandalosamente, manipula a bel prazer resultados eleitorais, exerce pressão sobre a oposição, cala jornais e televisões; em suma, um Pol Pot inteligente.

Samak visto por um artista tailandês

A questão entre a Tailândia e o Camboja prende-se com a soberania sobre uma pequeníssima nesga territorial onde se localiza um velho templo khmér. A Corte de Justiça de Haia deu razão ao Camboja quando, em 1962, foi pedido parecer sobre a disputa. Contudo, importa lembrar que as duas províncias em que se localizam Preah Vihear e Angkor foram, até 1907, território siamês-tailandês e que a entrega de tais territórios à França pelo Sião foi conseguida mediante ameaça militar francesa; ou seja, o Sião nunca aceitou um processo conduzido ao arrepio dos princípios que regem a diplomacia, com a agravante do então "Camboja" não possuir autenticidade, dado encontrar-se diminuído e ser um protectorado francês. O assunto resolver-se-ia se entretanto não se tivesse imiscuído uma personagem que tem sido desde há dez anos o principal agente da intriga política tailandesa. Thaksin, ex-primeiro ministro tailandês, com processos pendentes e inculpação em crimes de toda a sorte, conseguiu fugir da Tailândia há pouco mais de um ano, graças a autorição do governo thaksinista de Samak Sundaravej. Samak era o testa de ferro de Thaksin e o seu governo caiu estrepitosamente. Ao assumir as funções de governação, o actual primeiro-ministro, o anti-thaksinista Abhisit Vejjajiva deu mostras de querer regular a disputa com o Camboja. Contudo, dizia-se há muito que por detrás da agressividade cambojana havia a mão de Thaksin. Os seus seguidores disseram que não, que Thaksin era um patriota e nunca fomentaria o agudizar da tensão entre os dois países. Pois, para clarificar os mais reticentes, Thaksin acaba de ser nomeado conselheiro económico de Hun Sen e, eventualmente, candidato a portador de passaporte cambojano. É bom que as coisas se clarifiquem. Se os portugueses fossem confrontados com a nomeação de um seu ex-primeiro-ministro como conselheiro do governo espanhol, decerto se indignariam. Se esse ex-primeiro-ministro fosse procurado pela polícia portuguesa por fraude, enriquecimento ilegítimo e favorecimento de familiares em negócios que lesaram o país em milhões de milhões, decerto que lhe chamariam tudo. Thaksin é hoje, apenas, um traidor.


Os acontecimentos da política têm sempre, para os mais avisados, uma espessura que remete para o tempo longo. Thaksin não está a servir o governo cambojano; está a jogar pelo Vietname, o maior adversário regional da Tailândia. Ora, para mais, o Vietname é um país comunista. Já eu dizia há tempos, para espanto e sorriso trocista de alguns, que Thaksin estava a fazer o tirocínio para se transformar num líder comunista. Comunista e muito rico. Eu bem os ouvi, aos "Vermelhos" de Thaksin, perorarem sobre o "feudalismo", o "reaccionarismo", a "mudança dos tempos", o poder para o "povo". Decifrando, tal queria dizer fim da monarquia, fim da "democracia burguesa" e aceitação de uma "democracia popular". A evidência de hoje parece confirmar os mais negros presságios. Quando há um ano enverguei a camisola amarela em homenagem ao Rei, fi-lo pelo respeito que a sua figura me inspira, mas também para rememorar os anos terríveis em que nós, portugueses, estivemos quase a cair sob essa tirania que em 1989 derrocou por toda a Europa de Leste mas persiste em retirar o direito à dignidade a centenas de milhões de asiáticos.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Samak, Thaksin, Hun-sen, que belos exemplos para a gente de Belém e S. Bento, que com eles tão bem se identificam. Só lá falta o dono do maior semanário de Portugal...

Quanto aos "ses" que colocas relativamente á corrupção - "meramente hipotética" - de gente que nos rege, até temos casos parecidos: governantes que saem do executivo e vão logo para a administração de empresas espanholas com grande poder em Portugal, bem à revelia dos interesses nacionais. O nome vem no dicionário e não é monopólio do sr. Miguel Vasconcelos.

Gi disse...

Um amigo que esteve este Verão no Vietname e no Camboja, falou-me do primeiro como estando altamente entusiasmado com o capitalismo, e do segundo como muito pobre e corrupto.
Mas o Miguel crê que o Vietname é comunista? Será no sentido em que a China de hoje é comunista, ou seja, de um estado totalitário embora convertido ao capital e ao enriquecimento?