02 novembro 2009

Adeus Phnom Penh

O Camboja regressa lentamente à normalidade. Os comunistas lançaram o país no caos: colectivizaram, aboliram o mercado, erradicaram a educação, desagregaram a família - como dizia Engels na Sagrada Família, uma das três inimigas do Socialismo, juntamente com a propriedade e o Estado - vandalizaram a cultura e mataram a religião, tidas por alicerces superestruturas do "feudalismo" e da monarquia. A alma deste povo foi mutilada, mas não irreparavelmente. As correntes profundas que alimentam a árvore da vida resistiram, silenciosas, à imposição de uma monstruosidade. O que não sobreviveu ao camartelo, aos explosivos, às fogueiras purificadoras - os instrumentos musicais, os livros, os documentos de arquivo, o mobiliário - permaneceu na memória.

O corpo de dança do palácio real voltou a animar as cerimónias de Estado, as orquestras reconstituiram-se, os paramentos e estatuária votiva voltaram aos templos abandonados ou convertidos em armazéns, os museus reabriram, as festas do calendário budista recobraram a vitalidade de outros tempos. Neste último dia, inteiramente dedicado ao lazer, uma visita obrigatória ao Museu Nacional e ao Palácio Real. No Wat Phraa Kéew de Phnom Penh, centenas de pessoas em oração. No Palácio Real, muitos jovens estudantes, de caderno de apontamentos na mão, seguindo as lições dadas por cicerones. No Museu Nacional, coisa que deve ser visitada por qualquer pessoa culta, um admirável percurso pelas belas-artes cambojanas, do período pré-angkoriano à presente dinastia, onde até não faltam as peças de artilharia fundidas pelos engenheiros luso-cambojanos.


Uma mole de monges vindos dos templos contíguos ao Palácio por ali exercita o seu inglês, interpelando os turistas e explicando o significado das peças em exibição. Um deles, loquaz e já senhor das subtilezas da língua inglesa, desenvolve em poucos minutos a sua interpretação teológica dos padecimentos do seu povo, afirmando que a purificação da alma exige testemunhos de dor e que a grandes provações se segue abundante colheita de vocações. Para ilustrar a sua lição, socorre-se do exemplo da grande rei leproso Jayavarman VII, que no século XII reergueu o Estado e o converteu definitivamente ao Budismo.

Os museus são, para a generalidade dos orientais, algo mais que uma colecção de objectos, pelo que ao longo do percurso museológico encontramos, absortos, visitantes que ali acorrem para fazer as preces ao Iluminado. A arte não pode viver, decididamente, fora da esfera do sagrado. Um pequeno círculo de oração manteve-se durante uma hora em frente de um friso de imagens do Buda. Aproximei-me e ouvi falar japonês.


No complexo de edifícios que formam o Palácio e Templos, os músicos da Escola de Belas-Artes executam peças do reportório clássico cambojano. As partituras foram destruídas, pelo que foram necessários anos de reconstituição e investigação musicológica apoiada em registos sonoros existentes na Europa para que se pudesse de novo ouvir a música khmér, extinta por decreto de Pol Pot em 1976.

Assinalando o virar de página sobre o passado tenebroso, uma sala dedicada ao novo monarca, Norodom Sihamoni, ele também artista de mérito e tido por especialista em dança clássica khmér. Enquanto príncipe, viveu na China e na Checoslováquia, onde cursou as melhores escolas de dança. Ao regressar, o seu pai, Rei Sihanouk, demasiado envolvido na trama dos acontecimentos que levaram à intervenção norte-americana e à tomada do poder por Pol Pot, abdicou e outorgou todos os direitos de sucessão a Shiamoni. O novo Rei tem conquistado a consideração e estima dos cambojanos, procurando não envolver-se na luta política e comportando-se de acordo com as regras que exigem de um monarca constitucional absoluta imparcialidade perante os actores políticos. A monarquia vai, lentamente, afirmando a sua superioridade num país onde o governo é detido por um ex-Khmér Vermelho passado para o campo dos vietnamitas, que em 1979 invadiram o país e depuseram Pol Pot.

A viagem de trabalho que agora concluo foi proveitosa para recolha de documentação que estimo relevante para o estudo que desenvolvo sobre as relações de Portugal com o Sião, mas foi gratificante no reconhecimento da grande capacidade de regeneração que as sociedades encerram para arrostar os mais brutais desafios. Como para confirmar o regresso da normalidade, ao regressar ao hotel fui surpreendido com uma estranha celebração oficiada por monges budistas. Teminadas as obras do seu hotel, os proprietários pediram ao abade do templo mais próximo que fossem exconjurados espíritos e forças malignas através de um rito purificador. Os proprietários sentam-se no chão e são lavados com a água benta trazida do poço do templo. O Camboja é, de novo, khmér.




Phnom Penh (composto por SM o Rei Sihanouk)

Monica: música composta por SM o Rei Sihanouk(clicar), dedicada ao saudoso Je Maintiendrai

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Phnom-Pehn é uma cidade segura como Bangkok?

Combustões disse...

É, ao contrário de muito alarmista. As pessoas são de uma simpatia tocante, como o eram os tailandeses antes da "parvalhização" pequeno-burguesa iniciada nos anos oitenta.