29 outubro 2009

S-21: o verdadeiro rosto do comunismo

Foi difícil adormecer após a visita à Escola S-21, em Phnom Penh. Em Abril de 1975 - nefastíssimo para nós, portugueses, terrível queda no abismo para os cambojanos - os Khméres Vermelhos entravam na capital após cinco anos de luta. Uma vergonha para o Ocidente: abandonar aliados à imolação, trair a palavra dada, inventar desculpas para não ajudar aqueles que em nós haviam confiado.


Ainda a cidade não havia caído e já a França, a amiga de todas as tiranias, de Saddam e Khomeiny a Mao, reconhecera o governo do Kampuchea Democrático. Um padre francês, François Ponchaud, testemunha presencial da tragédia, lavrou então extenso relatório que ninguém quis aceitar como fonte credível e imparcial. A obra, que guardo entre outras dezenas que fui comprando e anotando ao longo dos anos, tinha por título Camboja: Ano Zero e foi editada em finais de 1976, entre o desprezo dos liberais, a fúria dos intelectuais e o silêncio cúmplice da Igreja. Ora, relendo a obra, está lá tudo o que acontecera, o que podia acontecer e o que de facto veio a acontecer sob o regime genocida de Pol Pot. Noam Chomsky afirmou então que o testemunho do Padre Ponchaud não passava de cabala contra o socialismo.

Só não acreditou quem se deixara cegar por décadas de propaganda comunista. Se Trostky aplicara o "comunismo de guerra", se a Espanha se enchera de valas comuns, se sobre todo o Leste europeu se abatera a mais sinistra forma de governação pelo medo de que havia memória, se Mao trucidara milhões, por que razão Pol Pot não faria o mesmo ? Hoje coloquei-me fisicamente no cenário real dessa sinistra experiência involucionista.

Aqui foram humilhadas, seviciadas, afogadas, electrocutadas, enforcadas ou simplesmente eliminadas com uma barra de ferro milhares de pessoas. Aqui, os comunistas puderam finalmente, sem freio e sem medo de qualquer repercussão revelar sem fingimento a extensão do seu ódio ao humano. Tudo foi fotografado, ordenado, anotado. Primeiro mataram os monges, os antigos ministros, os generais, os aristocratas, os juízes, deputados e presidentes dos municípios. Depois, chegaram os professores, os médicos e farmacêuticos, os engenheiros, os artistas e jornalistas, mais actores e homens de negócios, os grandes e os pequenos, respectivas famílias, seus empregados domésticos, assim como pessoas - quaisquer pessoas - que tivessem algum dia trabalhado com "parasitas e exploradores", "estrangeiros imperialistas" ou outros "agentes de intoxicação ocidental".

Quando se esgotou o sortimento, chegaram os sargentos, os ex-soldados condecorados, os polícias, os amanuenses, pequenos comerciantes, os cauteleiros, vendedores de jornais, taxistas e demais já tocados pelo vírus do lucro, da propriedade e do individualismo. Com estes vieram também chineses, cham muçulmanos, vietnamitas, indianos, paquistaneses, thais, católicos luso-descendentes, Kuy, Mon, mestiços e tudo quanto ofendesse a pureza da cepa original khmér. Por último, qualquer pessoa que se atravessasse no caminho do Angkar (Partido Comunista).


As pessoas chegavam famintas e febris, aterrorizadas e perdidas e eram atiradas para celas. Interrogadas, arrancavam-lhes confissões sobre delirantes conjuras, sabotagens e conluio com o inimigo. Passavam os dias esvaindo-se em sangue, unhas arrancadas com alicates, o corpo perfurado por fios condutores, ossos das mãos partidas, olhos vazados no ímpeto dos interrogatórios. O movimento das celas às salas era feito à coronhada, pontapés, puxões de cabelo, murros nos genitais. As paredes das escadas ainda exibem marcas do pintalgado do sangue desses desgraçados. Uma imensa galeria de retratos de inimigos da revolução e do socialismo, alguns com etiquetas pendendo de alfinetes enterrados no peito, no pescoço ou nos trapézios, evoca os três anos de ininterrupta actividade deste centro. Das mais de vinte mil que aqui sofreram calvário, só catorze sobreviveram.
Aqui não houve piedade para ninguém. Olho para os rostos mecerados, o olhar apagado e distante que exibiram na última fase das suas vidas. Dolorosamente, o universo desta gente tinha-se tragado sob os seus pés e mal compreendiam o que lhes estava a acontecer. O comunismo foi assim, da Rússia dos Sovietes à Etiópia, Moçambique e China. Aqui no S-21 escreveu-se um dos últimos capítulos dessa sangrenta ideologia e das mentiras em que se especializou. Depois ddisto, só pode permanecer comunista quem perdeu aquela elementar dignidade que nos separa da animalidade.

7 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Lá virá a dupla Louçã-Jerónimo gritar contra as mentiras do imperialismo burguês. Os comunistas sempre foram uns santinhos...

Renato_Seara disse...

Parabéns pelo post. Já conhecia as atrocidades cometidas por um dos regimes mais brutais que existiu à face da terra. Mas creio que nunca é demais relembrar, essa vergonha chamada S-21. Um campo onde foram cometidas atrocidades ao nivel daquelas que foram cometidas nos campoes Nazis e nos Gulags Soviéticos.

Lura do Grilo disse...

Não se percebe tanta crueldade.

adsensum disse...

Comovente e revoltante.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Quem dera que houvesse um inferno para esses bichos monstruosos!

Gi disse...

A selvajaria e crueldade humanas, seja sob que regime for, choca-me, assusta-me, entristece-me, enoja-me, e deixa-me perplexa.

Flicts disse...

Visitei a S-21 há poucos meses e foi o lugar mais arrepiante que vi, dado que continuamos a sentir que percorremos os corredores e salas de uma escola, embora o que vamos vendo nos lembre a cada segundo que foi um palco de atrozes torturas.
Dei por mim a ler este blog em busca de material sobre vestígios portugueses na Ásia e ainda bem que alguém teve a ideia antes de mim :) Parabéns pelo trabalho.