27 outubro 2009

Phnom Penh: os milagres também acontecem

Como aqui informei há dias, encontro-me na capital do Camboja a proceder a levantamento de recursos documentais portugueses aqui existentes. Difícil tarefa, pois o Camboja teve três capitais ao longo dos últimos quatro séculos - Lovek, Oudong e Phnom Penh - e sobre cada uma delas caíu, implacável, o demónio da destruição. Lovek foi saqueda e queimada até às fundações pelos thais, Oudong foi uma mera cidade real, cercada por paliçada, objecto de frequentes lutas intestinas, Phnom Pehn foi queimada pelos siameses na década de 30 de Oitocentos e, recentemente, mataram-lhe o que de mais importante tem uma cidade: os seus habitantes.

Este é um povo sofrido. Foi obreiro de grande e florescente império que mudou definitivamente o Sudeste-Asiático. A Birmânia, a Tailândia e o Laos são tributários dessa esplendorosa civilização de Angkor que, vivia a Europa no tempo das trevas, possuia bibliotecas, hospitais, observatórios astronómicos, armazéns, escolas, saneamento, ruas pavimentadas. Quando há meia dúzia de anos percorri Angkor ao longo de quatro dias, quase me deixei cativar pela teoria da morte súbita dos povos. Angkor não morreu. Foi morrendo, ou antes, sofreu tantas suaves e quase imperceptíveis quebras de vitalidade que acabou por deixar de representar o modelo que fora a chave da sua grandeza. Ao contrário dos teórios dos cataclismos, as civilizações raramente desaparecem violentamente. Vão-se esgotando por processo de consumpção, esquecendo-se de si, alienando-se. Os cambojanos só recentemente se deram conta da enormidade daquilo que os seus antepassados foram e fizeram. Contudo, no processo de construção da identidade nacional forjada por inspiração francesa durante as décadas do Protectorado (1863-1954), juntaram-se explosivamente diversos ingredientes que tornaram o século XX cambojano num inferno. A mistura do nacionalismo com o milenarismo budista, do revolucionarismo marxista com a ideia indo-budista de renovação integral dos homens, do Estado-nação e cidadania com uma etnia, permitiram que se fossem criando condições para o desastre de 1975.


Pol Pot não nasceu do nada, não é uma aberração, pois aconteceu e tudo o que acontece na vida colectiva nasce de uma possibilidade que encontra a sua oportunidade. Os cambojanos vivem a nostalgia de uma grande potência, mas foram perdendo, partida após partida, o lugar que lhes coubera no palco da história. Disputados entre thais e vietnamitas desde o século XV, invadidos ou obrigados à vassalagem, acidentalmente empurrados para guerras que não eram suas, viram-se subitamente em 1975 entregues a si. Ora, se a tomada do poder por Pol Pot foi precipitada pela demente política americana na região, os cambojanos carregavam há muito a semente daquilo que aqui aconteceu. Foi o triunfo da floresta sobre a cidade, dos homens dos arrozais sobre a sociedade e cultura da corte, da visão do mundo do aldeão sobre as complexas abstrações de letrados.


Ao entrar na Biblioteca Nacional de Phnom Penh fui informado que os livros que aqui um dia povoaram e deslumbraram milhares de jovens urbanos - também eles desaparecidos do número dos vivos - foram queimados e alimentaram os fogões da cantina dos conselheiros chineses. O que era um livro para um conselheiro vindo da China maoísta, se tudo o que de importante havia estava contido no pequeno livro vemelho ? Ao entrar nos arquivos nacionais, disseram-me que o piso térreo fora transformado em pocilga e que a documentação, rica e variada, fora atirada para um grande monte de papel, urinada e comida pelos suínos. Mas nos grandes desastres há sempre uma réstea de possibilidade para que milagres aconteçam. Não quiseram os suínos aproveitar tamanha oportunidade e parte importante dos arquivos conseguiu sobreviver. Nestes dias de trabalho, das oito às cinco, lá descobri uma boa dúzia de documentos que falam de portugueses que aqui, em tempos não distantes, foram oficiais da corte, ministros e diplomatas. Essa gente morreu há muito. Das suas casas e igrejas já nada existe. Foram queimadas pelos comunistas. Mas hoje voltei a ler-lhes as cartas que escreveram aos reis que serviram, aos residentes franceses, a altos funcionários civis e eclesiásticos. Encontrei, até, listagens com os seus nomes, fotografias, processos inteiros de servidores públicos chamados Monteiros, Pintos, Pereiras. Voltei a dar vida a esses nossos portugueses. Isso enche-me de alegria.




Depois, olho para as mesas e vejo jovens das universidades em busca de livros, folheando-os com prazer, discutindo ou lendo para o colega do lado uma passagem mais divertida. É o milagre da sobrevivência da inteligência sobre a brutalidade, da curiosidade intelectual sobre o fanatismo ideológico, das letras sobre o sangue. Afinal, o espírito tudo sobreleva e a tudo desafia. Olho para a parede: imagens do Buda e do Rei Sihamoni pendem na parede. Novo triunfo da verdade: a sobrevivência da memória e da História sobre o tempo sem tempo da Utopia, a sobrevivência da verdade e da luz sobre a loucura. Saí daquelas salas com a alegria de quem foi testemunha da sobrevivência da humanidade.

2 comentários:

Nuno Caldeira da Silva disse...

Continuas ai e nem m disseste nada?

João Pedro disse...

Bom testemunho num país que passou por tanto e que regressa à vida. É também por posts como este que podemos conhecer melhor a Indochina.