10 outubro 2009

Não tomar partido


Disseram e repetiram-no ao longo de décadas como um mantra: "o poder autárquico é a grande obra do regime". O parlamento entrega-se à afanosa ociosidade, ao barroquismo e jogos florais. Os deputados não trabalham, os deputados primam pelo absentismo, dormem nas galerias e nos gabinetes, discreteiam sobre ninharias, fazem o totoloto durante as sessões. Quanto aos parlamentares europeus, esses são duplamente inúteis, pois do exílio dourado a que os remeteram não há eco nem proveito. O poder autárquico, sim, fez obra, abriu estradas, bibliotecas, urbanizou, electrificou, restaurou, preservou. Esta é a crença que a todos toca.


Discordo absolutamente. Se em Portugal há coisa mais suja pelo compadrio e pelo favorecimento, mais viciada nas artes do arranjismo, do apossamento e do enriquecimento ilícito, criação de emprego sem benefício público, amadorismo e irracionalidade, esbanjamento de recursos, veículo de ascensão para aventureiros, agente de divisão local e inimigo do património natural e histórico, esse dá pelo nome de Poder Local. Infelizmente, a maioria das pessoas que a ele se dedicam não compaginam com a nobre ideia do serviço à comunidade. São famílias, pais, filhos, noras, tios e primos, amiúde gente sem qualquer preparação, quase iletrada, privada de visão de conjunto. São os pequenos caciques dos bombeiros, os líderes das colectividades desportivas, o dono da fabriqueta ou o pato-bravo local acolitados pelo sindicalista, pelo jornal local, pelo professor do liceu, pelo padre da paróquia.


Há muito, muito tempo, assisti às sessões de uma junta de freguesia. Aquele parlamentarinho, sentado em mesinhas de escola primária, com "oposição" e "autarquia" em permanente luta, com a sua "antes da ordem do dia" tratando da guerra do Afeganistão, do preço das ramas, dos últimos resultados eleitorais em França e da situação na África do Sul, seguida de infindáveis discussões sobre o lugar do novo bebedouro, o subsídio de camisas para o futebol local, o frete das camionetas para levar as crianças à praia, a aquisição de uma fotocopiadora, o arranjo do gradeamento do jardim era, sem tirar, a essência desse pequeno mundo que distorce, imobiliza e estilhaça qualquer possibilidade de unidade na governação. Os "representantes do povo" preparavam as suas intervenções em casa, pequenos Demóstenes brincando à política, com tiques, pausas intencionais, acenos de cabeça e muitos "muito bem", palmas ou pancadas de reprovação. A "oposição" e a "junta" falando em consensos, "pactos de freguesia" e no "superior interesse local" arrematavam o grotesco felliniano.


As autarquias vivem de sonhos, sonhos perigosos sem dúvida, alimentam-se de demagogia e especializaram-se na hipoteca do nosso futuro colectivo. Em cada concelho, para ser concelho, um auditório "multiusos", um pavilhão desportivo, um campo para os futebóis domingueiros, uma piscina pública, mais biblioteca, mais um gabinete de "história local" - outra fantasia - um "museu local", jornadas gastronómicas, promoção de "turismo local", promoção dos "poetas locais" duplicando em versão embotada, pequenina e provinciana aquilo que vai acontecendo na detestada Lisboa. É tudo miniatural. Não há concelho que não tenha o seu site, mais o seu webmaster, mais os "agentes culturais de animação", mais a sua "política social". O que sobreleva de tudo isto, resume-se a um só flagelo: dar emprego ao maior número possível de pessoas, afivelar clientes, espalhar a rede de envolvidos, comprometer tudo e todos.


Se, em vez das autarquias, tivessemos um corpo especializado de servidores do Estado, gestores de carreira, avaliados e punidos, fiscalizados e reportando, muita da pouco vergonha que vai fazendo os Valentins, as Felgueiras, os Avelinos, os Curtos, os Monterrosos e demais potestades jamais aconteceria. O mundo do Apito Dourado é o mundo autárquico. Os números apurados pela Transparência Internacional indiciam o resvalar do país para o barranco da corrupção endémica. Ponha-se o caro leitor na viatura, percorra os concelhos, atente na destruição dos bosques, na vandalização de edifícios históricos, no irrefreável avanço das "urbanizações", dos "campos de golfe", nas estradas que não levam a sítio algum e daí retire razões para votar, ou não votar.
Miguel Castelo Branco

4 comentários:

Rui Santos disse...

caro Miguel
uma prosa magnifica, como alias é seu timbre.
mas aqui "trespassa-me" uma questão:
- de acordo com o diagnostico que faz das nossas autarquias e do remédio a propor, como defender a descentralização?
eu tenho também essa duvida, pois padeço do mesmo diagnostico/remedio:
.somos irremediavelmente e naturalmente propensos À corrupção e à "tabernização" da causa publica
. mas defendo a descentralização, pois repugna me pensar que apenas no Terreiro Paço tudo se resolva.

novas elites?
apenas municipalismo?

excelente prosa.

cumprimentos

Rui Santos

Nuno Castelo-Branco disse...

Agora só voto para "tirar" quem lá está. Não me atrevo a pôr seja quem for.

Manuel Brás disse...

Boas razões para...

A política “tabernizada”
e em estado miniatural,
tanta prosápia arrasada
pelo desarranjo cultural.

O serviço à comunidade
muitas vezes capcioso,
pois grassa a impunidade
do compadrio faccioso.

A responsabilidade social
frequentemente desprezada,
por uma cultura demencial
miseravelmente enfezada.

A política encolhida
por vis susceptibilidades,
é, sem dúvida, tolhida
de imundas imbecilidades.

Dylan disse...

Excelente análise.