17 outubro 2009

Falar do passado é pensar o futuro


Cinco horas de trabalho com a comunidade luso-siamesa de Banguecoque. Ao contrário do que muitos poderão pensar, gente instruída, muito instruída, conhecedora das histórias escritas e daquelas que a memória mantém e passa de geração em geração como património de identidade.

Dos textos para a conversa, que não se apartou do objectivo proposto - a representação da comunidade católica-portuguesa nos textos de viajantes e diplomatas - o registo precioso de referências que um e outro, em busca de vestígios aqui e ali espalhados por bibliotecas e arquivos, vão compilando ao longo dos anos. Depois, a investigação de campo: as entrevistas, os questionários, colheita de informações sobre pais, avós e bisavós, os pequenos objectos, as fotografias, o desenhar das árvores genealógicas, os cruzamentos familiares.


Esta gente foi importante. Serve o Estado desde o século XVII, aqui serviu, se sacrificou e lutou como ninguém pela preservação da sua orgulhosa forma de viver. Não vive separada, não se auto-segregou e deu mais, muito mais, do que recebeu. Coube-lhes, durante quase trezentos anos, o papel de intermediários entre o seu mundo e o mundo exterior. Com a mudança dos tempos, resistiram à tentação do dinheiro e dos negócios e preferiram continuar a servir o Rei e o Estado. Todos quadros superiores dirigentes do Estado, com formação académica digna de respeito em universidades do Ocidente ou nas melhores universidades da Tailândia, nutrem por Portugal sentimentos mais profundos que a simples afeição. Sem o saberem, são, à sua maneira, cidadãos portugueses.
Hoje tomei-me de coragem e desenvolvi uma breve reflexão sobre os cinco flagelos que se abateram durante o século XIX sobre a sua comunidade:
- A saída dos padres portugueses, substituídos por franceses que os desdenhavam e combateram incansavelmente;
- A derrota do "partido" em que militavam - o chamado "Sião Conservador", que queria a abertura ao comércio mundial, mas uma abertura cautelosa que salvaguardasse o interesse do reino, o que não aconteceu;
- A sistemática campanha de difamação sobre eles lançada por missionários protestantes americanos e representantes diplomáticos do mundo anglo-saxónico, que neles epitomizaram a confluência de tudo o que detestavam: miscigenação racial, catolicismo, para além da resistência que mostraram face aos homens "negócios";
- A adopção pela elite siamesa das modas e preconceitos anti-latinos e anti-católicos sorvidos numa Inglaterra onde os católicos foram segregados, perseguidos e silenciados até finais do século XIX.
- A construção do Estado Moderno e da sua burocracia tentacular desenhada por "conselheiros" estrangeiros. Filhos da terra, puseram-nos em posições subalternas. Mas eles não eram subalternos. Eram engenheiros, cirurgiões, comandantes militares, dominavam como poucos a cultura diplomática do Sudeste-Asiático antes da imposição da Pax Britannica e da Mission Civilisatrice. A prová-lo, a impressionante capacidade que demonstraram ao longo das duras décadas de ocidentalização a marchas forçadas, o facto de se terem mostrado indispensáveis a todos os europeus que aqui se instalaram.
No trabalho que preparo, dedicar-lhes-ei certamente dois ou três capítulos. É um dos mais suculentos pedaços da história desconhecida dos portugueses na Ásia.
Miguel Castelo Branco

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