01 outubro 2009

Está bem acordada

Vejo-o duas ou três vezes por semana na biblioteca. O Liu é professor universitário de história chinesa em Banguecoque, um conversador de talento, qualidades intelectuais assinaláveis, ávida curiosidade e grande abertura. Se alguém me tem ensinado o tailandês do dia-a-dia é o Liu. Insiste em ensinar-me e nunca se dá por vencido quando resvalo para o inglês. Hoje estava diferente. Os olhos cintilavam, o queixo erguido, a voz espaçada, uma bandeira vermelha na lapela. Perguntou-me: "não viste o meu país? Não viste como nos levantámos, que grandes somos ?"
Sim, vi a enorme parada, as maravilhas da nova tecnologia chinesa, o aprumo das falanges apeadas, as intermináveis colunas de blindados, as baterias de foguetões, os céus de Pequim coalhados de helicópteros e bombardeiros. A China acordou e impõe a nova multipolaridade do século XXI.
Confesso que admiro a China: um grande povo, patriotas até aos ossos, um sentido de comunidade que se sobrepõe às mais brutais adversidades, uma consciência nacional separada do mundo. Gosto da China Amarela da Grande Muralha e não gosto da China Azul, ultramarina e negociante das Singapuras, dos Hong Kongs e das Chinatowns. Gosto da China fardada; detesto a China de fato e gravata. É um povo absolutamente xenófobo, intrínsecamente "holístico", inapelavelmente inclinado para se fechar em si. São 5000 anos, quase tantos como o Egipto desaparecido. É a última civilização da Antiguidade. E está bem viva. Depois do que hoje me foi dado ver, a China está cheia de si e quer limpar os últimos 150 anos.
Gosto dos chineses. É um povo terra-a-terra, sem complexidade e sem subtileza: duros e frios quando se sentem inferiorizados, amáveis como crianças quando respeitados, de uma fingida implacabilidade traída por um coração lamechas. O chinês tem sempre quinze anos e quem disser o contrário que o prove: é vaidoso, narcisista, comilão, romântico, acredita nos talismãs e nas estrelas, para não perder a face é capaz de se imolar, é ciumento e dado a amuos, teimoso, galhofeiro e coscuvilheiro. O chinês é, para toda a vida, um estudante em véspera de exames. Trabalha quinze, dezoito horas por dia, cala o cansaço e pensa na abundância, no respeito que os outros por ele têm, no amor eterno. Ao contrário do que os outros pensam, o chinês é incuravelmente desorganizado e trapalhão, pelo que se escuda na disciplina, na repetição e nos regimes autoritários. A China democrática é uma quimera. A sê-lo, seria a China dos gangster's, das sociedades secretas e das intermináveis querelas. Em suma, sou absolutamente sinófilo.
Miguel Castelo Branco



4 comentários:

Diogo disse...

E que vai implementar uma vacinação maciça contra a gripe A:

O Dr. Kent Holtorf é entrevistado na Fox News sobre os sintomas e o tratamento do H1N1 (a Gripe Suína ou Gripe A). O Dr. Holtorf é um especialista em doenças infecciosas e a sua opinião sobre a vacina que está a chegar ao mercado em Outubro (de 2009) é no mínimo alarmante.


Locutor da Fox News: Você daria a vacina da Gripe A aos seus filhos?

Dr. Kent Holtorf: De forma nenhuma!


VÍDEO da entrevista legendado em português

NanBanJin disse...

Meu Caro Miguel:

Subscrevo, no mais do seu conteúdo, a análise generalizante aqui feita dos traços dominantes de uma certa "identidade" chinesa.

Mas logo em seguida, tenho que apontar aqui o meu sinal de discórdia - nalgum tema ou análise havíamos de discordar, e eu "acusar o toque": a pretensa grandeza da China e a honra regastadas nestes 60 anos de revolução, saúdo-os com grande frieza.

"É um povo absolutamente xenófobo, intrínsecamente "holístico", inapelavelmente inclinado para se fechar em si. São 5000 anos, quase tantos como o Egipto desaparecido. É a última civilização da Antiguidade. E está bem viva. Depois do que hoje me foi dado ver, a China está cheia de si e quer limpar os últimos 150 anos."

Infelizmente, e em toda veracidade da afirmação neste artigo que destaquei acima, esse "limpar dos últimos 150 anos" parece vir a trote com o mais buçal e sinistro dos fascimozinhos. E o fascismo chinês - e insisto e sublinho o termo "fascismo" aqui por mim escolhido - além de buçal e feio, é assim mesmo: revanchista, novo-rico, pedante e inchado na sua imagem ao espelho; é grosseiro e torpe, consegue ser mais deplorável e grotesco que a pouca-vergonha da DPRK, porque assente em toda uma lista de opções duvidosíssimas que parecem continuar a granjear o aplauso do resto do Mundo - e é precisamente isso o que eu considero de mais absurdo neste cenário. A China-a-passo-de-ganso lá vai fazendo a sua batota no jogo da globalização, sorvendo tudo quanto é recursos alheios, pavoneando a sua monumentalidade feita à custa de um resto-do-mundo - o tal dito industralizado e o nem tanto quanto isso - a cada dia que passa mais depurado das sua capacidades e viabilidade, e a assistência ainda assim vai-lhe tecendo elogios! Como é isto possível!?
Temo muito pelo futuro com uma China assim "à nossa porta". Nem num filme da Leni Riefenstahl...

Meus amigáveis cumprimentos,

L.F. Afonso/NBJ, Japão

Combustões disse...

Caro NanBan Jin´
Certíssimo, mas essa arrogância sem comedimento é outra crise de eterna adolescência chinesa. Não se esqueça: eles têm sempre 15 anos !

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois, a mim parece-me que os portugueses deveriam passar a ter sempre, digamos... uns 18 anos. Para acabarmos de vez com os "pequeninos, feios e pobres coitados"!