20 outubro 2009

Deixai falar o pobre Saramago

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.

Espanta-me que muitos ainda se alvorocem com um sub-género que nunca reuniu predicados elementares de integridade, que se repete e daí não sai. Espanta-me também que Saramago, em vez de Caim, não escolhesse a figura de Onan, mais conforme a expectativa de quem o lê.

Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar.

Depois, Saramago sofre de monomania religiosa, de doença da santidade invertida. Se literariamente é hoje um zero, também não possuiu qualquer autoridade em "Ciências da Bíblia". É um amador e como todos os amadores possui atevimento proporcional à ignorância. Tenho a absoluta certeza que o homem não sabe uma palavra em latim, nunca leu um tratado de apologética e desconhece coisa tão elementar como a Enciclopédia Católica. Depois, por tudo o que vai dizendo - deixai falar um ignorante, pois nunca devemos impedir um tolo de se enredar nas suas próprias palavras - parece confundir Teologia, Bíblia e História Eclesiástica. Se, em vez de o atacarem, o confrontassem com o seu [des]conhecimento, melhor serviço fariam. Infelizmente, parece haver uma lei de ouro nestas lutas sem interesse e sem consequência.

Saramago vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

7 comentários:

cristina ribeiro disse...

Li, com proveito, o « Memorial do Convento » e « O Ano da Morte de Ricardo Reis »; depois, ainda comecei a ler mais, mas valha-me Deus...; terei, talvez, chegado à 3ª página.

lili disse...

Saramago demonstra ter ideias básicas e ignorantes confrangedoras.

Nuno Castelo-Branco disse...

Dinheiro, ânsia de sobressair. Ataca a base da civilização que o deixa grasnar o que bem lhe apetece. Gostava imenso de o ouvir perorar sobre o Corão ou o Islão, em geral. Terá a necessária coragem? Duvido. A empresa não proporciona o arredondamento da conta bancária, nem sequer os doutoramentos honoris causa. Leva, isso sim uma valente cacetada!

JB disse...

Não fosse ele um cavalheiro com alguma idade e debilidade física, e não fosse eu uma pessoa que tenta ser educada e pacífica, pouco dada a violências gratuitas, citaria Os Maias, quando alguém fala no dever público de (lhe) arrear duas bengaladas.
Parabéns pelo post, magnificamente escrito.
JdB

Manuel Brás disse...

Neste golpe publicitário
de puro oportunismo,
um pensamento sectário
carregado de cinismo.

A confusão instalada
entre credo e instituição,
uma leitura assolada
por tamanha aberração.

A verborreia parcial
e a falta de dignidade,
num acto demencial
de abjecta publicidade.

Muita história sonegada
na defesa do humanismo,
uma verbiagem carregada
de ignóbil adesionismo.

João Amorim disse...

Caro Miguel

As suas palavras são sábias e como tal deve perceptir a postura objectiva do publicista. Saramago fala para um público que não necessita mais do que cuspe e arremesso para vibrar. Trata-se uma campanha de emoções – tudo aquilo que o livro "Caim" não deve suscitar. Tenho, para mim, que sabendo como é este povo português, a Bíblia vai-se começar a vender mais do que o livro apontador.

Isabel Metello disse...

Caro Miguel,

Mais uma vez um comentário de referência que destaquei no BNW.
Deixo-lhe, também, a minha versão humorística do grande feito da Erva Daninha :)

http://vacagalobarcelos.blogspot.com/2009/10/nuticia-ficcionado-facciosa-joselito.html