22 outubro 2009

A chuva, os mortos e o gato

Wat Prayurawongsawat Worawiharn, nas proximidades da Igreja de Santa Cruz, em Thonburi, o primeiro templo da era Rattanakosin (= Banguecoque) construído no estilo lanka. Teve como patrono Somdet Chao Phraya Prayurawongsawat, do todo poderoso clã Bunnag, que foi, enquanto Ministro do Sul e Ministro do Tesouro e do Comércio, grande protector dos Protuguet. Hoje passei por lá, caía uma chuva diluviana e abriguei-me numa das muitas Saalaa (= sala). O cemitério, que recolhe as urnas das cinzas de gerações de filhos da aristocracia siamesa e dos ricos armadores chineses do junk trade que fez a fortuna do Sião antes de 1855 merece ser visitado. É um mundo miniatural, com montanhas de artifício, riachos, uma gruta com o Buda Reclinado (Phraa Nóon), árvores de frutos anãs, canteiros floridos, casas para mortos, chedi e altares familiares. O sincretismo religioso e estilístico sino-thai em toda a exuberância.

A cerca que isola a cidade dos mortos, hoje em tijolo recoberto, é o desfiar da história da elite siamesa desde 1820: nobres, generais e almirantes, diplomatas, ministros, banqueiros, escritores, governadores provinciais ali foram depositados após cremação. Depois do passamento, mantêm, desafiantes e orgulhosas, as glórias do poder que detiveram. É um livro aberto de linhagens. Ali estão os Chao Phraya, os Phraya, os Luang e os Khun - os títulos de nobreza siameses, abolidos em 1932 - mais os Mom Luang (parentes da família real), suas mulheres, filhos, netos e bisnetos.




A limpeza e aprumo do cemitério denotam a permanência das grandes famílias na vida tailandesa. Jardineiros varrem, podam, adubam, limpam vasos e polem as grandes vidraças das casas familiares, onde bustos dourados dispostos em níveis hierárquicos assinalam os postos de relevo conquistados, geração após geração, por cada uma das famílias ali representadas.


Um gato recolhia-se da chuva e parecia imerso na mais profunda meditação. Dizem os thais que os cães e gatos são protectores dos mortos e lhes proporcionam companhia. O D. Gato que hoje encontrei parecia fazer jus à crença. Parecia um deus egípcio, com incenso a seus pés, indiferente à minha presença. Banguecoque é uma grande e infindável montra de surpresas.

Miguel Castelo Branco

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

E ao contrário dos seus parentes de Lisboa, os gatos tailandeses não têm medo das pessoas. Que lindos gatos aí vivem! Aproximam-se facilmente para umas guloseimas ou festas. Isto quer dizer qualquer coisa.

Nuno Caldeira da Silva disse...

São gatos Siameses!

Flicts disse...

O que eu perdi nos arredores da Igreja de Santa Cruz... :(