26 setembro 2009

A raleficação


Aceito de barato que os tempos são outros, que as vontades e os modos são diversos. Sou, decididamente, um imobilista, mas depois do que aqui dissemos anteontem a respeito das elites que temos e merecemos, foi-me indicada reveladora imagem da queda. Eu nada sei dos futebóis, mas sei do poder tremendo de condicionamento que exerce sobre metade da população, da intocabilidade, impunidade e tirania dos seus animadores. Podia ser um mundo à parte, uma subcultura, um enclave, mas tornou-se no todo desde que Portugal decidiu que preferia ser uma "potência da bola". Estas coisas pagam-se e aqui está o resultado: um dirigente desportivo palitando os dentes em plena tv. Portugal segue, eufórico, o caminho que leva ao esplendor do reles.
Miguel Castelo Branco

5 comentários:

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

O pior é ver o povo submisso em relação a esta ralé. Ao pensar que nossos antepassados se bateram sem temor contra mouros, batavos, castelhanos e turcos e hoje a maioria dos seus descendentes lambe as botas de sujeitos como o homem do palito, é difícil não se perder.
Há uma frase de um republicano brasileiro arrependido, Ruy Barbosa, que resume bem o espírito dos nossos tempos:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

Saudações.

Stalker disse...

Antes de mais, agradecer as sugestões sobre as Apsaras. Sobre o palitar de dentes, fiquei com alguma curiosidade e fui tentar apanhar um video. Lá está ele e não se tratou de um "lapso" momentâneo. Foi duranto o directo quase todo, ou seja, já que somos donos do rectângulo, vamos lá avacalhar isto como deve ser.

Nuno Castelo-Branco disse...

E pensar que este homem é irmão da candidata a primeiro-ministro e bisneto de um 1º ministro da Monarquia!

james disse...

Um autêntico labrego, este Dias Ferreira.

ze disse...

Estamos encravados entre “palitos” e a superioridade moral e estética da esquerda, Caro Miguel. Se tiver paciência leia estas linhas de um tal Luís Januário:
«[...] De facto a esquerda é utópica. A esquerda é qualquer coisa em que é impossível acreditar. Assim como um amor que durasse para sempre. A direita é natural. A esquerda é sobrenatural. A direita é uma coisa conhecida: o curso de direito, uma bebedeira ao fim-de-semana, uma bofetada do marido, um quadro do Cargaleiro, uma homilia de domingo, o Expresso, a crónica do Marcelo, os lucros do Belmiro e a nossa inevitável pobreza, as festas da Hola, os filmes da Lusomundo, a literatura internacional e a comida do Eleven, a hipertensão e a obesidade. A esquerda é a nacionalização do petróleo, um curso de enfermagem veterinária, um bellini ao fim da tarde em Corso Como, o esplendor das línguas, a pele secreta que as mulheres do Ocidente revelaram no final do século, a música de Arvo Part e Marilin Crispell e Christina Plhuar, os romances de Bolaño, Sebal — a esquerda tem tendência a ter um êxito póstumo —, VilaMatas, Coetzee, o design de Laszlo Moholy-nagy, o testamento de vida, os legumes no wok, o vinhateiro que resiste no Mondovino. [...]» - http://daliteratura.blogspot.com/