24 setembro 2009

Quantas pessoas andam "metidas" na política ?

O Professor António Marques Bessa, das melhores cabeças portuguesas, infelizmente tão pouco lido, defendeu há cerca de quinze anos tese de doutoramento com o título Quem Governa: uma análise histórico-política do tema da elite, notável e exaustivo estudo cujo compêndio devia figurar em qualquer estante culta. Marques Bessa corta cerce com a velha Filosofia Política, especulativa e fascinada pela intemporalidade, incapaz de se perspectivar face à história. Colocando as ideias em circunstância, exibindo enciclopédico conhecimento que quase esgota o vasto reportório bibliográfico publicado no Ocidente nos domínios da Antropologia Política, da História das Ideias Políticas e da Sociologia Política, não deixa de apontar a metafísica e a axiologia como molduras e marcadores anteriores à acção política, mas aborda o jogo político como resultante da luta pelo poder. Na tradição maquiavélica, o poder entendido como fim para quem o busca, rompe com todas as hierarquias axiológicas e é, para todos os efeitos, um monstro cego de valores animado pela vontade de poder. Assim, a elite política deixa de ser considerada valorativamente, mas sim como um grupo de homens (e mulheres) inteiramente dedicados e profissionalizados na busca do poder e distribuição dos privilégios que o mesmo proporciona. Elite não quer dizer inteligência, preparação e serviço à comunidade, mas brutal determinação em atingir o poder e mantê-lo a todo o custo, mesmo que esse custo seja a perda da comunidade que a elite diz servir.

O tema é interessante, pois em vez de colocar a elite como um corpo social exemplar, Bessa categoriza-a na sua mais profunda e inquietante dimensão animal. "Eles" estão no poder e "nós" não estamos. "Eles" dominam e apenas nos pedem o voto ou o assentimento para que nada se altere. "Eles" têm um número, uma estrutura de rendimento e formas de enriquecimento, "eles" têm uma cultura de corpo, "eles" reagem com violência quando posta em causa a sua ascendência. "Eles" são sempre poucos, muito poucos, têm clientelas - não excessivamente numerosas, pois os meios são escassos - podem manipular a lei e os tribunais, o ensino e a comunicação social, nomeiam e demitem as chefias militares e policiais, concessionam obras públicas, premeiam agentes económicos em detrimento de outros, favorecem as suas regiões e depauperam aquelas que lhes são hostis.

A elite tem de mostrar força, tem de amedrontar e simular omipresença para impedir que outros lhe tomem o lugar. Assim, estratifica-se internamente a elite política em elite governamental, elite local e favorecidos. O dinheiro, as possibilidades de ascensão e apossamento de lugares a todos premeia de forma diferenciada, mas é melhor fazer parte da elite que não o fazer. A elite é reduzida. Em regimes ditatoriais, é muito pequena, mesmo que se mascare por detrás de um mar multitudinário. Nestes regimes, aqueles que estão com o poder não correm riscos: a polícia não os prende, os tribunais não os punem. Contudo, salvo em casos extremos, estas ditaduras impõem uma regra de moralidade em tudo que ao Estado e seus servidores respeita. Nas ditaduras, roubar o Estado é um crime e mesmo o mais alto escalão inibe-se de dar largas à veia cleptomaníaca com medo de ser afastado do poder. Nas democracias, contudo, sobretudo naquelas em que afloram mais claros sintomas de degenerescência da nobre ideia de soberania popular, o poder da elite não conhece limites. São milhares de indivíduos ocupando lugares, do topo à base da organização do Estado, posto que a impunidade assume contornos que nenhuma instituição pode impedir.

A elite nos sistemas de pluralidade política é uma elite dividida; logo, há que dar lugar aos que estão no governo e aos que, não o estando, também estão "metidos" na política. Explica-se, assim, que uns e outros invoquem pactos de regime sempre a situação piora, sempre que uma crise económica sacode da letargia quem não "está na política". Nestes momentos, a elite dividida invoca coligações, arcos constitucionais e grandes consensos.

Resta-nos perguntar quantas pessoas fazem parte dessa elite. Ora, pelos meus cálculos grosseiros, quadros superiores dirigentes, cargos de nomeação e confiança política, assessorias ministeriais, dirigentes de fundações públicas, empresas tuteladas ou com forte presença do Estado, eurodeputados, deputados e respectivos secretariados, mais representantes locais (juntas de freguesia e assembleias municipais), com o seu séquito de estipendiados e amigos perfarão cerca de 80.000 ou 90.000 pessoas, ou seja, aproximadamente 1% da população "metida na política". O número parece coincidir com os dados facultados pelos partidos políticos.. Os seus militantes cumpridores, isto é, com situação regularizada, somados os filiados de todos os partidos, quase coincidem com aquele número. É estranho, mas é assim.
É por isso que os comícios me enchem de pavor. Ao ver aqueles milhares de pessoas agitadas e barulhentas, só penso quantas querem um lugar nas sortes da lotaria eleitoral. Não há almoços grátis. Se ali estão - excepção feita aos sempiternos bem intencionados - é por alguma razão. Adivinhem qual !
Miguel Castelo Branco

2 comentários:

Manuel Brás disse...

Na verborreia eleitoral
de tonalidade maliciosa,
é tal a jactância visceral
de propagação infecciosa.

O arroubo elevatório
é por demais evidente,
sendo público e notório
a essência decadente.

A lotaria eleitoral
distribuirá poleiros,
é a certeza visceral
de valores foleiros.

Nuno Castelo-Branco disse...

Ena pá... Este vai já para o copy-paste, com link!