21 setembro 2009

Os sentimentos tudo sobrelevam: o herói do dia e o herói de sempre


A saga do menino birmanês terminou em vitória. Filho de imigrantes indocumentados, gente pobre fugida à tirania birmanesa, Mong Thongdee ganhou há semanas o concurso público para o melhor avião origami. A final asiática teria lugar no Japão, mas o rapaz não podia abandonar solo tailandês pois era, tecnicamente, um apátrida. Foi uma campanha impressionante de apoio ao garoto, com intervenção das mais altas instâncias e com direito a um encontro com o primeiro-ministro. Depois, tudo acabou em bem. Foi-lhe concedido o passaporte, o rapaz foi e venceu. Regressou hoje a Banguecoque com as palmas da vitória e no aeroporto foi recebido como um herói tailandês. De camisola com as cores nacionais e exibindo sobre a cabeça o retrato do Rei, mostrou aos thais que este país multiétnico foi e é, enquanto existir monarquia, uma lição para todos quantos confundem nação e etnia. As cataratas de lágrimas que fizeram as manchetes dos jornais transformaram-se em largo e orgulhoso sorriso. O Rei, tocado, deu instruções para que ao rapaz fosse atribuída bolsa de estudo até à conclusão do ciclo escolar que terminará dentro de quinze anos, quando Mong concluir o mestrado. O poder tem de ser, sempre, paternal !

Desde a madrugada de hoje, uma multidão compacta aguarda pacientemente em frente de um hospital de Banguecoque o relatório da equipe médica que assiste o octogenário Rei Bumiphol, a braços com enfermidades que acometem pessoas da sua idade. Os livros de boas-melhoras não chegam para tantos milhares de súbditos de todos os estratos e condições que, de joelhos, fazem orações pedindo a recuperação do monarca. O Rei continua a ser o "nosso Capitão", o "nosso herói" (Praehk), o "Senhor da Vida" (Chao Chiwit). Os tempos passam, mas revejo nestas tocantes mostras de fidelidade tudo quanto viandantes do passado registaram sobre esta relação de amor familiar entre o Rei e o povo. O poder tem de ser, sempre, amorável.

Há tempos, um amigo disse-me que os thais só aceitariam um presidente se este tivesse, reunidas, as qualidades do Buda, a força dos Fantastic Five e a longevidade de uma tartaruga; ou seja, essa pessoa jamais existirá.
Miguel Castelo Branco

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Espero bem que se restabeleça. Era só o que faltava faltar-lhes agora.