30 setembro 2009

A história desconhecida de Portugal na Ásia


Há cerca de um ano, de passagem pela nossa embaixada em Banguecoque, uma das funcionárias teve a amabilidade de me oferecer uma pequena brochura intitulada A Portuguese in Singapore ... Dr Jose D'Almeida, 1825-1850. Desconhecia, então, que o nome de José de Almeida se cruzaria com o trabalho de investigação que aqui vou fazendo desde finais de 2007, como não fazia a mínima ideia da importância que os portugueses ainda mantinham em todo o Sudeste-Asiático nas décadas de 20, 30 e 40 do século XIX, antes da abertura da China ao mercado mundial por força da chamada Primeira Guerra do Ópio. Habituados a só estudar a Ásia tocada por Portugal, limitando cronologicamente a aventura asiática portuguesa aos séculos XVI e XVII ou a circunscrever o que dessa gesta remanesceu aos exíguos territórios de Goa, Macau e Timor, deixamos de fora, afinal, o mais importante. Num trabalho de paciência, as peças vão-se articulando. Depois de consultados centenas de anuários comerciais e mapas estatísticos, livros de viagens, insignificantes notas marginais, fotografias e gravuras até, vai engrossando o interminável filão de notícias oriundas dos bandéis católicos do Gujarat a Kerala, do Ceilão a Orissa, de Chittatong à foz do Irrawadi, de Penang a Malaca, Singapura, Batávia, Banguecoque, Oudong (Camboja) e Tonquin. Então, portugueses ainda estavam em todo o tabulado, eram influentes, ouvidos e pretendidos, ora trabalhando para armadores de Macau, ora servindo os britânicos da East India Company, os holandeses da NHM (Nederlandse Handel Maatschappij, sucessora da VOC), os sultões do Achém e Riau, os potentados malaios, os reis do Sião, os reis cambojanos ou os imperadores Nguyen do Vietname.

Estes luso-asiáticos mantinham entre si laços estreitos, relações familiares até, trocavam vitais informações de natureza comercial, diplomática e política, abriam mercados e inibiam a acção de estranhos, intrigavam e faziam lóbi. Quando as embaixadas britânicas, norte-americanas ou francesas chegavam a determinado local para negociar tratados com as potências regionais, tudo o que traziam para discussão era há muito conhecido pelos seus interlocutores locais. Quando Roberts chegou ao Sião em 1833, ficou estupefacto quando o Phra Khlang (responsável pelos contactos com os estrangeiros) retirou triunfante de uma pasta um volumoso lote de recortes de jornais norte-americanos e lhes disse: "sabíamos há muito que viriam". E acrescentou: "sabemos quantos são, as propostas que trazem e onde estiveram antes de aqui chegarem". Atrás do Phra Khlang, um siamês de ascendência portuguesa ria silenciosamente. Ou seja, algures em Nova Iorque, um correspondente das firmas macaenses coleccionava metodicamente tudo o que nos jornais ia sendo publicado, enviava os recortes para Singapura ou Batávia e ali, outro correspondente fazia-os chegar a Banguecoque, Rangoon ou Hué.


Não deixa, pois, de constituir supresa que outros europeus tecessem uma lenda negra a respeito deste "portuguese half-caste" que se lhes atravessam pelo caminho e os impediam de ludibriar os incautos asiáticos. Os padres franceses das Missions Étrangères de Paris, furiosos inimigos de Portugal, travaram com estas comunidades luso-asiáticas uma luta de séculos. Um dos seus mais gabados próceres, o bispo Pallegoix, escreveu uma missiva secreta na qual afirmava textualmente ser prioridade da acção da Igreja Católica no Sião a destruição dos portugueses. A comunidade católica, que recusava obediência às ordens de Roma e pedia insistentemente "padres portugueses de Goa", foi excomungada em massa e tratada como "comunidade cismática". Na Birmânia, essa luta entre o povo cristão e os franceses das Missions, ali ajudados pelos Barnabitas de Milão, atingiu foros de violência física. Ora, franceses e italianos, não conseguindo conversões, culpavam os portugueses - sinónimo de católico na Ásia - de impedirem o trabalho de apostulado. Nada disto é velho. Ainda nos anos 60 e 70, os chamados Padres Brancos faziam subversão anti-portuguesa em Moçambique, fornecendo abrigo à FRELIMO, estabelecendo pontes diplomáticas entre os movimentos guerrilheiros e a Santa Sé e chegaram ao extremo de enganar o Papa Paulo VI, precipitando a célebre audiência que não foi audiência entre os líderes do PAIGC-MPLA-FRELIMO e o Sumo Pontífice. Lendo a Histoire de la Mission de Siam 1662-1811, do historiador oficial das Missions, Adrien Launay, pasmamos ao não encontrar uma só alusão aos portugueses ao longo das quase trezentas páginas dedicadas à génese e expansão do catolicismo no Sião.


Se os britânicos são mais comedidos, pois o seu império nunca se pretendeu do Espírito Santo mas de Pluto, não deixam, eles também, de menosprezar o papel fundamental dos portugueses num século XIX que consideram o "século britânico". Esquecem-se que o tráfico de ópio de Malwa para a China foi disputado grama a grama por embarcações portuguesas de Macau, que o número de embarcações de pavilhão português que demandavam os portos do sub-continente indiano (Bombaim e Calcutá), do estreito de Malaca (Penang e Singapura), de Batávia na Insulídia e Kâmpóg Saôm (Camboja) eram em tonelagem e número superiores à soma de holandeses, americanos, franceses, espanhóis e dinamarqueses. Esquecem-se, sintomaticamente, que o co-fundador de Singapura, o maior entreposto asiático do século XIX e XX, foi um português, não um fura-vidas semi-letrado, mas um médico que ali viveu e morreu cumulado de honrarias, o Dr. José d'Almeida.


Muito há que escrever e publicar sobre este e outros temas relacionados com os portugueses na Ásia. Muitos convenceram-se que o tema se esgotou, que basta ler o saudoso Padre Teixeira para compendiar a história recente do nome de Portugal nestas paragens. Infelizmente, não frequentando bibliotecas e arquivos, desconhecendo as fontes não portuguesas - britânicas, francesas e holandesas, para não referir as siamesas, cambojanas, malaias e birmanesas - muitos persistem em fechar a porta a este fascinante universo escondido. Ainda há dias lia um artigozinho, da autoria de adido cultural português algures na Ásia. Li meia dúzia de páginas sem uma nota, sem uma referência bibliográfica ou arquivística, repetindo, trepetindo à exaustão as mesmas coisas lidas e relidas. Um mar de lugares-comuns sem arrimo, sem contextualização, sem interpretação. De facto, a maior inimiga de Portugal é a irmã preguiça.


Miguel Castelo Branco

4 comentários:

Textículos disse...

Já me fez ganhar o dia.

Brilhante e delicioso este apontamento da passagem dos portugueses pela Ásia.

Somos cá de uma raça. :)

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Tremo só de pensar que se nada for feito a tempo, tudo estará perdido. Quando leio os seus posts sobre o nosso legado na Ásia, fico sempre emocionado. Concordo com o diagnóstico feito acerca da nossa maior inimiga, a preguiça.
Com muito menos recursos do que hoje - o mundo lusófono finalmente possui massa crítica para lhe garantir uma posição estratégica imbatível - transformamos há cinco séculos os mares do sul em mares portugueses, mas depois nos perdemos na preguiça e no fácil orgulho garantido pela ascendência nobre, tal e qual os descendentes de Gengis Khan. Será que acabaremos como eles, ou como os gregos de Alexandre na Ásia? Será que o vigor da raça se extinguiu depois de tal esforço olímpico?
Lembro da descrição de uma família imaginária de portugueses perdidos, os "da Souza", imaginados por Josef Conrad no romance "An Outcast of the Islands"; um presente medíocre aliviado pela memória dos feitos de antepassados lendários, quase semi-deuses.
Espero que possamos ser a excepção à regra no que diz respeito à sentença de Toynbee:

"An autopsy of history would show that all great nations commit suicide."

Cumprimentos de um português das Américas.

NanBanJin disse...

Sublime: é a única palavra que me ocorre para qualificar este artigo.

Li ontem noite adentro e hoje, uma vez mais, este texto, com renovado interesse e surpresa.

Espero bem, num futuro próximo, poder apreciar o fruto de tão profícua investigação, impresso no papel, e em edição encadernada, no conforto do lar,e sem ter que recorrer a este ofuscante ecrã, nada recomendável aos olhos de quem se proponha ler uma obra extensa, cuidada e de grande pertinência.

A luta pela memória e pela consciência histórica do nosso Povo é mui nobre tarefa, que merece o sentido aplauso de todos nós.

Um grande Bem-Haja, Miguel.

L.F. Afonso/NBJ, Fukuoka, Japão

JÚLIO SILVA CUNHA disse...

"A Historia desconhecida de Portugal na Asia"... seria um grande livro!
J.