08 setembro 2009

Não há ordem política sem transcendência


Há uns tempos, preparando mais um trabalho com saída garantida para as calendas gregas, andei a investigar as constituições europeias e a forma como estas se revestiam de diversos simbolismos religiosos. No meio de constituições fervorosamente laicas (de que a França é exemplo mais acabado), existem outras perigosamente religiosas (onde o político e o religioso são coincidentes ou a religioso é mero pretexto) e outras que nominalmente encontram um caminho aceitável para uma Justiça que transcende o político-jurídico.


Este belo texto lembra-me o esforço milenar, dos reis sumérios a Hegel, de vincular a ordem política à transcendência. Vögelin passou décadas a reflectir sobre o problema - que já tinha sido apaixonadamente colocado por Donoso Cortés - e chegou à conclusão que nada está por inventar e que o perigo das ideologias contemporâneas reside precisamente no facto de se edificarem sobre a necessidade do transcendente, negando-o, ocultando-o ou, até, pretenderem substituir-se ao que sempre foi, é e será. Tudo o que existe é "religioso": uma teoria económica, uma ideia de homem, de sociedade, de Estado e das leis carrega, sempre, escondida, inconsciente ou deliberada, uma arquitectura invisível que prende, fixa e justifica, do transcendete ao imanente, a ordem das coisas. O vazio a que alguns chamam de "sociedade aberta" é, assim, uma contradição, ou antes, um mero expediente para reduzir a ordem política a serva da sucessão [ininteligível se lhe faltar uma concepção de tempo e História] dos acontecimentos; ou seja, o absurdo do sem-sentido. Se a ideia de um contrato permanente fosse aceitável, as sociedades organizadas em Estado dissolver-se-iam perante qualquer oferta mais apetecível ao estômago.


Muitos europeus pensaram que a tal Constituição Europeia - que nunca teve coragem de dizer o seu nome - iria, por toque de mágica, dissolver as raízes profundas e os manancias substerrâneos que alimentaram durante séculos as nações. Afinal, essa pseudo-constituição parece ter nascido com um propósito absolutamente negativo, que se revelou com a discussão dos grandes pilares identificadores da ideia de Europa. Não se lembram da campanha de Giscard d'Estaing para contornar a incontornável associação entre o Ocidente e o Cristianismo ? Quem diz Cristianismo - que é, queiramos ou não, o grande vínculo e não o "Fogo Grego" ou o "Direito Romano" - poderá dizer monarquia. A Europa sempre foi monárquica, antes e depois do advento do Cristianismo, pelo que reduzi-la a um mero puzzle de repúblicas contraria a Respublica Christiana que é o Ocidente medieval, ou seja o Ocidente Cristão. Aqui está a cobra a comer a sua cauda !

Durante muito tempo acreditei na possibilidade da ordem política sem arrimo. Vivendo num Estado budista - libérrimo, respeitador das liberdades em todo o sentido da palavra - não mais posso aceitar viver sob um regime sem telhado e sem fundações. É o que dá viver na Ásia que jamais foi tocada pelas engenharias jurídicas europeias.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Vamos enviar a nossa classe política em peso para a Tailândia. Seis meses aí e voltam novinhos em folha!