09 setembro 2009

Fantasias sexuais (e outras) sobre o Oriente, ou um escrito cheio de aspas

Somos ainda herdeiros de muitos clichés oitocentistas, victorianos e puritanos, positivistas e progressistas, materiais com os quais a Europa de meados do século XIX fabricou a sua visão do mundo. Muito do que ainda vamos lendo carrega essa marca da comparação. No topo, um certo Ocidente - leia-se, a Europa e os EUA do protestantismo armado de indústria, ciências exactas e aplicadas, laboratórios e tecnologia, organização administrativa e militar capazes de realizar em grande escala - com responsabilidade moral sobre a orbe. É o "fardo do homem branco" de Kipling, mais a Mission Civilisatrice de Jules Ferry, uma corrupção à francesa de uma certa ideia medieval de expansão do mundo cristão, mas agora adaptada ao mais estreito nacionalismo, filho do jacobinismo.

Num patamar intermédio, os semi-civilizados, com escrita, Estado e leis, mas teimosamente agarrados à "tradição" e incapazes de "evoluirem". Portugal, o Sul italiano, a Espanha dos "ciganos" e dos "mouriscos", mas também os otomanos, os persas, os nababos indianos, os birmaneses, os siameses e os malaios, mais os chineses, cobriam um vasto mostruário de "sociedades estacionárias" submetidas ao "despotismo" político, ao "fanatismo" religioso, à crueldade institucionalizada - leia-se as touradas, os "suplícios" - bem como ainda a formas "arcaicas" de organização social. Para estas politéias pedia-se que a benevolente mão do Ocidente protestante [ou jacobino] as retirasse da imobilidade, as conduzisse pelos caminhos do "progresso" e do "desenvolvimento", construísse "cidadania", "Estado de Direito", "separação de poderes". O direito de intervenção das nações civilizadas estava implícito. Foi esse o mote justificador de tantos atropelos, diktats e ultimatos a que o tal Ocidente [protestante ou jacobino] recorreu para garantir a "marcha do progresso" - a tal Légende des Siècles de Hugo - e expandir as luzes num mundo submetido às trevas da "superstição".

Ora, um dos temas recorrentes a que os literatos de Oitocentos mais atenção deram tinha a ver com o proibido, ou antes, com a sexualidade e violência imaginadas dos "bárbaros" e dos "semi-civilizados". Foi o tempo pródigo dos "eunucos", da "prostituição sagrada", do "infanticídio chinês", das "suti" indianas, do "canibalismo", dos "comedores de fígados" e "caçadores de cabeças", dos "rituais de passagem", dos "serralhos" e "haréns", da "poligamia" e das "comunidades matriarcais", mais as lendas do "predador negro", do berbére submetido ao "aguilhão genésico", ao português "half caste" que se misturava com os "selvagens" ou do "crime do Padre Amaro" e da "sexualidade no seminário", temas caros ao panfletarismo republicano. Olhando de perto estas instituições, verificamos que tudo o que delas se escreveu torrencialmente não passava, afinal, de projecção das fantasias, medos ou simplesmente simplificações claro-escuro destinadas a conquistar o crescente público de leitores com poucas letras.

O filão dos haréns dava para uma monumental antologia de vários volumes. Aqui no Sião, os missionários protestantes norte-americanos dedicaram seis inglórias décadas a atacar a poligamia e a "cidade interior" onde os reis possuíam a sua vasta família. Pensava-se que ali se praticavam as mais "abomináveis" "perversões". Os reis passariam ali grande parte da sua vida entregues ao "prazer", "amolecendo o espírito" e gerando filhos sobre filhos. Afinal, a Cidade Interior era a caução de que a monarquia precisava para sobreviver, num tempo em que metade dos nascituros não sobrevivia ao quinto ano de vida. O harém servia, também, para fortalecer a clientela do poder, estreitar laços de aliança com as famílias importantes e poderosas, educar as crianças na aprendizagem do mando. A provar [o carácter não reprodutivo do harém], o facto dos reis não terem tantos filhos como as setenta ou oitenta mulheres que o serviam como concubinas e, sobretudo, relevante e terminante, o facto dos haréns sobreviverem a décadas ininterruptas de poder feminino, como foi o caso do Achém (Ache) no norte da Sumatra, onde durante oitenta anos o sultanato foi detido por mulheres.


Muito do que hoje se lê nos jornais e na predicação política carrega esse tremendo estendal de erros sobre o Oriente. Dos peregrinos da "democracia a todo o custo", do "mercado" e da "abertura", às ficções dos "estudos do género" - quanta pulsão perpassa por essas pérolas - mais as ficções jurídicas dos exaltados da causa das "constituições", dos Estados de Direito, mais "um homem, um voto", mais "participação livre dos cidadãos", um mar imenso de desprezo por tudo o que não é Ocidental [protestante e jacobino], um analfabetismo impante e sentenciador que nos impede de construir uma verdadeira comunidade dos povos. O resultado, obviamente, é o inverso daquilo que aspiramos. Quanto mais intolerantes, mais eurocêntricos, mais inegociáveis, maior é a reacção àquilo que pretendemos. Querem meia dúzia de exemplos ? Aqui estão. Se o Ocidente tivesse reposto a monarquia no Afeganistão, os Talibã há muito que teriam cessado hostilidades; se o Xá estivesse no Irão com a sua Revolução Branca, o radicalismo islâmico teria sido afogado à nascença; se os EUA não tivessem afastado Sihanouk, Pol Pot nunca teria acontecido; se a descolonização se tivesse realizado com entrega do poder às lideranças tradicionais ou "sub monarquias africanas e asiáticas", o resultado teria sido bem mais aceitável à luz do conceito de independência dos povos; se Baodai do Vietname tivesse sido devidamente apoiado, Ho Chí Minh teria sido detido. São estes e outros erros que ficam e não se reparam.
Miguel Castelo Branco

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Para nem sequer falarmos da disparatada política que se fez na então Índia Portuguesa. Com o prestígio adquirido ao longo de 400 anos, o que teria sido, no caso de se ter optado pela razão?