04 setembro 2009

E se a História tivesse sido outra ?


A História abordada nas possibilidades de futuríveis que jamais se realizaram constitui vasto e sedutor horizonte especulativo que não ofende nem o rigor nem a ética dos historiadores. Não se tratando de gratuito empréstimo da ficção, possibilita incorporar no labor historiográfico a metodologia das chamadas "ciências militares" - geo-política, geo-estratégia - que trabalham com cenários, colocando aqueles que a exercitam perante a imprevisibilidade dos factores subjectivos implícitos nos acontecimentos, sobretudo aqueles factores ditos "intangíveis" e "psicológicos" que são inerentes a qualquer acção humana.


O What If ?, que conheceu um primeiro volume em 2001 e, logo depois uma segunda série de ensaios de grande interesse em 2004, apresenta um vasto elenco de acontecimentos submetidos a inversão. Se os Confederados tivessem vencido, se Lutero tivesse sido julgado e sentenciado, se Roosevelt não tivesse chegado à Casa Branca, se Churchill tivesse sido preterido por Halifax, se Wallace tivesse conseguido a eleição, se os chineses tivessem perseverado na expansão marítima no século XV ...
Seria curioso reunir alguns historiadores caseiros e desafiá-los para trabalho análogo sobre os acontecimentos axiais da história portuguesa. Se D. João I não se tivese decidido pela tomada de Ceuta, se os portuguseses em 1640-50 não se tivessem interessado pelo Brasil e dessem uma guerra de longa duração aos holandeses na Ásia, se Pombal não tivesse ascendido ao poder, se D. Miguel tivesse vencido a guerra civil, se João Franco tivesse ficado com a presidência do ministério após o regicídio, se o 25 de Abril se tivesse gorado ...


Pacific Boils Over

6 comentários:

Raimundo_Lulio disse...

... e se a D. Catarina de Bragança e o seu o respectivo esposo não se tivessem vendido aos castelhanos em 1581?

Nuno Castelo-Branco disse...

Muito interessante, mas a propósito do SE chinês do fim da nossa Idade Média, a coisa é hoje tomada muito a sério, como SE tivesse mesmo gorado por um fortuito acaso. Este reescrever da história vai direito à conveniência comercial do momento, sempre pronta a fazer fosquinhas aos senhores de Pequim, que como se sabe, em matéria de nacionalismo fariam inveja ao Sr. general Hideki Tojo! Para cúmulo, conhecemos, eu e tu, um chinês - que sempre viveu em território administrado por Portugal - do nosso ginásio que ainda há semanas me falava com desprezo do nosso período dos Descobrimentos, comparando-o ao SE chinês. Incrível... É a vitória do mundo virtual.

Combustões disse...

Creio não podermos situar o problema da união dinásta à luz do nacionalismo dos séculos XIX e XX. Seria anacronismo, pois as casas reinantes tinham uma identificação patrimonial com os seus domínios. O curioso e importante é que foi precisamente durante esses 60 anos que mudou o paradigma, com a gestação do Estado tal como o entendemos, com o início da rotação que levaria à identificação dos reis com a "gente da sua nação"; logo, os primeiros servidores do Estado.

José M. Barbosa disse...

Hoje não resisti a comentar. Brilhante, como sempre.

Nuno Castelo-Branco disse...

Para o Raimundo:

Vendido? Como? A prudência é a melhor conselheira em matéria de política. Os Áustria sabiam que a Casa de Bragança seria sempre um perigo.
O SE que o Raimundo coloca, conduziria D. Catarina - e o marido - ao patíbulo.

Paulo Selão disse...

...se o atentado terrorista tivesse fracassado e D. Carlos e o Principe Real tivessem saido ilesos... Se as redes bombistas e organizações anarco-terroristas tivessem sido desmanteladas e os seus cabecilhas capturados ou mortos...