18 setembro 2009

As sombras de Deus

Sultans, Shamans & Saints: Islam and Muslims in Southeast Asia, de Howard M. Federspiel


Resistiram à passagem dos séculos. Viram chegar e partir portugueses, holandeses e britânicos, foram suseranos e vassalos, travaram entre si lutas intermináveis ou submeteram-se aos bugis, aos sultões do Achém ou aos reis do Sião. São as "Sombras de Deus", título que pediram de empréstimo ao califado Abássida, mas exprimem a continuidade de uma tradição pré-islâmica "indianizada" que vê nos rajás e sultões homens dotados de poderes sobre-humanos. Cercam-se da regália dos antigos reis javaneses, ostentam coroa, ceptro, espada cerimonial e são acompanhados pelo guarda-sol dourado próprio dos reis budistas da Tailândia e Camboja. São os sultões de Pahang, Terengganu, Perlis, Kedah, Perak, Kelatan, Johor, Selangor e Negri, que integram a Federação da Malásia. Os ocidentais menos avisados não compreendem o milagre desta longevidade, neles identificando um arcaísmo condenado ao desaparecimento. Contudo, no Sudeste-Asiático, um rei não é tido como uma mera instituição política, mas como agente angariador da benevolência divina. Estão no lugar que ocupam pois, sem eles, toda a comunidade política se desmoronaria. Aceitaram o protectorado britânico, como antes haviam enviado anualmente a Banguecoque o tributo de bunga mas. Depois, quando chegaram os japoneses - o maior flagelo da história cotemporânea asiática - foram despojados de tudo e quase assassinados, até que o ocupante se deu conta da importância destas figuras reinantes. Quando, no imediato pós-guerra, o comunismo se espalhou pela região graças ao apoio das comunidades chinesas migrantes, coube-lhes insuflar o espírito de resistência e apelar à guerra santa contra os mandatários de Pequim. Hoje são o maior dique à propagação do fundamentalismo islâmico.
Miguel Castelo Branco




1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

"Eles" não percebem, Miguel. O facto de poderem andar de Mercedes e serem conduzidos por um chauffeur, é o máximo que a fraca mioleira consegue imaginar. Aleixo corte-Real, d. Pedro III do Congo? Jamais suspeitaram da existência dessa "gente", como eles gostam de dizer... Bestas!