02 setembro 2009

A Águia e o Elefante ou a visão americana do mundo


No Thipakorawong Phraracha phonggsawadan krung ratanakosin rachakan thi sam, ou mais prosaicamente, na Crónica do Terceiro Reinado da Era Banguecoque (1824-1851), conta-se a história de um enviado do presidente Zachary Taylor que a Banguecoque chegou em 1851 com o propósito de negociar um tratado de comércio entre os EUA e o Sião. O homem chamava-se Joseph Balestier e era cônsul dos EUA em Singapura. Tinha-se dedicado ao negócio do açúcar, mas a empresa abrira falência. Homem rude, daqueles fura-vidas que infelizmente inundaram a Ásia desses tempos, era contudo o que de melhor a América possuia nestas paragens.

Deliciemo-nos com o bom pedaço da crónica:

"Não encontrando o Phra Klang (equivalente a ministro dos estrangeiros siamês) em Banguecoque, Balestier dirigiu-se com um intérprete ao palácio do Phraya Sripipat exigindo-lhe a marcação de uma audiência com o rei Rama III".

Ora, as coisas não se passavam assim na cultura diplomática siamesa. O Rei recebia enviados estrangeiros em reuniões de mera cortesia só após prolongadas negociações com o seu ministro dos estrangeiros. As delegações tinham de mostrar as credenciais, enviar exaustiva relação de prendas para o Rei, o Segundo Rei, os príncipes títulares de cargos ministeriais, apresentar os motivos da sua vinda e discuti-los com as autoridades locais. Depois, no dia da apresentação do texto final discutido e redigido pelas duas partes, o Rei condescendia receber as delegações, perguntar-lhes pela viagem que haviam feito, pela saúde dos chefes de Estado que representavam e oferecer-lhes prendas de acordo com a categoria dos emissários. O dito Balestier desconhecia tudo isso.


"Phraya Sripipat respondeu que no passado os enviados estrangeiros encabeçavam uma numerosa delegação. Joseph Balestier vinha só, com um guarda-chuva em baixo do braço e na companhia de um certo Mister Smith, um rapaz siamês que o Reverendo John T. Jones (missionário americano vivendo no Sião) tirara das ruas e adoptara. Acresce que o motivo da visita era desconhecido, pelo que não seria possível deferir o pedido de audiência real. Joseph Balestier replicou que o protocolo havia mudado e que agora era prática corrente enviar um emissário só. Insistiu o americano que trazia uma carta para o Rei. O diplomata siamês retrucou que a carta seria recebida, mas não haveria audiência, pois a Missão não estava de acordo com a etiqueta da corte".
A criatura desandou furiosa de Banguecoque, insultando os siameses, chamando-os de bárbaros, incivilizados e grosseiros. Habituados a negociar com régulos, reinetes e datus de aldeia, reagiam com assomos de ferocidade perante o elaborado cerimonial de estados cuja etiqueta descendia dos tempos de Angkor.
Anos volvidos, em 1856, chegava novo emissário do Presidente americano. O mundo tinha mudado. O Reino Unido havia vergado a Birmânia e começava a edificar a Malaia Britânica, Singapura - a maior concentração de bordéis, carregadores portuários e casas de ópio do planeta - transformara-se no maior pólo comercial do Sudeste-Asiático e em Banguecoque temia-se que estes farangues não perderiam qualquer oportunidade para converter o Sião em protectorado ou mesmo colónia, caso surgisse algum conflito. Era o tempo em que uma canhoneira bem artilhada se postava em frente de uma capital, apontava os canhões e exigia as mais mirabolantes cedências territoriais, tarifárias e até reparações pecuniárias que exauriam o Tesouro dos potentados expostos a essa diplomacia-pirata.
O emissário norte-americano era um certo Mr. Towsend Harris, que fora designado Cônsul-Geral dos EUA no Japão, recentemente aberto pela ameaça das armas ao "livre comércio". Harris nascera paupérrimo, não estudara para além das primeiras letras e dedicara-se ao negócio de louças de baixa qualidade. O negócio falhara, pelo que trespassou a loja e arrendou um velho navio mercante que o levou sucessivamente à China, às Filipinas e ao Estreito de Malaca. Depois, novamente falido, fez-se diplomata. Conseguiu que o fizessem representante dos Presidente para a negociação de um tratado com o Sião. Com a carta de nomeação recebida em Washington, deslocou-se a Paris. Na Cidade Luz, foi a um alfaiate e mandou cortar um "uniforme oficial" saído do seu gosto: um chapéu com um penacho e uma rutilante águia, casaco jaquetado de cor azul com bordados em fio de ouro na lapela e punhos, calças brancas com passadeiras douradas e uma "espada cerimonial"; em suma, tudo do melhor gosto. Chegou a Banguecoque, fez o tratado e reclamou vitória.
Depois de tudo isto, abro um livrinho americano, daqueles que a Secretaria de Estado manda publicar para distrubuir aos milhares entre "best friends", "friends" e "allies" e leio o seguinte: "o Sião só muito tarde enviou um embaixador residente para o representar nos EUA. À grande distância que separava os dois países, o Sião carecia de pessoas com qualidade requerida para representar o país no estrangeiro" (1)
Eu bem vejo a qualidade dos norte-americanos que se passeiam pela Ásia, caixeiros-viajantes quase analfabetos, desconhecedores de tudo, com aquele sorriso pateta discreteando sobre o atraso económico, o sub-desenvolvimento, os arcaísmos locais. É por isso que a China caíu nas mãos de Mao, que a Coreia do Norte não foi derrotada, que o Vietname os venceu, que o Laos e o Camboja se transformaram em coutadas do mais arrepiante concentracionarismo. A América é um portento. Há tempos, para provocar, disse num encontro que considerava a América um dos mais atrasados países do planeta. Ficaram chocados. Pois, mas é o que penso. Atrasados, ricos e bem armados, conjunção escaldante.
(1) REYNOLDS, Bruce (ed). The Eagle and the Elefant: thai-american relations since 1833. Bangkok: United Production, 1982, p. 60.

Miguel Castelo Branco

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Basta ver a longa lista de bestas presidenciais!

Bic Laranja disse...

O vocabulário corrente espelha melhor que tudo o resvalar para a barbárie. Os sinais são uma cultura da treta, reles e barata, se me impõe quotidianamente com regressos às aulas 'low price' e viagens de avião 'low cost'. Dá dó este rasoirar da civilização.
Cumpts.