24 agosto 2009

Um povo de artistas

Dizia Dante que a arte é neta de Deus, cabendo ao homem o papel de demiurgo ou, se quisermos, de segundo criador. O Jerachon Boonmak, escultor tailandês, é professor de escultura na Faculdade de Belas Artes. Diz-me que começou a esculpir aos doze anos e que agora, aos quarenta, "começa a fazer uns trabalhos". Espantou-me a humildade, pois detém invejável palmarés curricular.

Ontem, fui visitá-lo e estivemos uma hora em conversa despreocupada. Entretanto, chegou um cliente, um professor de arquitectura que insistiu numa encomenda: queria que o Jerachon lhe fizesse o busto em barro. O Jerachon pensou e lá acertaram no preço da obra. Quatro mil bath para o trabalho, mais dois mil para o forno, ou seja 120 Euro. Isto seria possível na Europa ?


Continuámos a conversa. O escultor prefere a escultura moderna, mas não se sente ofendido com o difícil trabalho de reprodução de um modelo vivo. Da massa de barro começou a surgir a cabeça, depois os olhos, os malares e a boca do retratado. Dizem que os artistas vivem na intermitência do seu mundo, mas o Jerachon manteve-se sempre neste e no seu mundo, ora esquecendo-se que eu ali estava - sério ou rindo-se de gozo pelo que fazia - ora falando-me da sopa que comera ao almoço. Tudo sem afectação e sem pose. Disse-lhe qualquer coisa e não respondeu. "Desculpe, estava na twilight zone."

A obra foi nascendo. O barro foi ganhando vida na mesma proporção das nódoas que se iam espalhando pelas mãos, pela camisola e até pelo rosto do escultor. Após uma hora, visivelmente cansado, chamou-me e disse: "aqui está, agora vai para o fogão".

Os últimos retoques. "Se o cliente quiser o busto em bronze, isso é mais caro, cerca de 50.000 bath, mas os netos e bisnetos falarão de um antepassado muito importante". Riu-se escancaradamente e deu por terminado o trabalho.

No fim, perguntou-me se eu queria o "meu bronze". Isso é para mais tarde, talvez daqui a uns meses. Entretanto, se quiser oferecer algo diferente aos amigos ou à família, já sei quem procurar para me fazer a raridade.

Sem comentários: