23 agosto 2009

Os santarrões


Há anos, décadas, que oficiam semanalmente nas capelas e capelinhas da imprensa escrita, falada e vista. Parece que em Portugal não mais há que essa dúzia e meia de opinadores de dedo em riste dando lições sobre tudo e coisa alguma. Dos futebóis à economia, das artes e artimanhas da partidite à política internacional, da literatura às fitas, das viagens à crónica dos escândalos e escandaletes, aí estão eles, 24 sobre 24 horas educando as massas ignaras. No fundo, são os empregados qualificados da política e da politiquice, estão e estiveram nos governos e fora deles, estão nos partidos e fingem imparcialidade, mascaram-se da cultura que parece-bem mas fazem parte, como todos os outros - os empregados desclassificados - de um país político que vive num aquário, que não conhece o desemprego, que não conhece os concursos públicos nem a eles concorre, que se desdobra no pluriemprego. Os santarrões da "cultura" dão pelo nome de Pulido Valente, António Barreto, Pacheco Pereira, Sousa Tavares, Marcelo Rebelo de Sousa, Filomena Mónica, Mega Ferreira e Graça Moura. Quando um dia se expremer tudo isso, ficará decerto O poder e o povo, de VPV, Os silêncios do regime, de AB, a belíssima tradução de A Divina Comédia, por VGM, a biografia de Álvaro Cunhal (quem se lembrará dele dentro de trinta anos ?) de JPP, Equador, de MST e pouco mais. Custa-me ver tanta inteligência malbaratada, sobretudo quando se trata de gente que poderia deixar mais, muito mais, se à vã política não dedicasse o preciso tempo.


Mas compreendo. Em Portugal, quem não faz política não existe, quem não se mete num grupo, numa curibeca, quem não acamarada ou não agita uma bandeira está perdido. Vive na margem, é um Zé Ninguém. É por essa e por outras que ninguém liga patavina aos homens de ciência, aos investigadores silenciosos, a todos quantos não têm estômago para acamaradar, engrupar e curibecar. Só não sei se as luminárias se terão dado conta que a influência que julgam deter não passa, afinal, de serviço prestado aos cérebros vazios, aos ufanos patetas e aos ómegas - os políticos desclassificados - que realmente dominam o destino da República. O resto são... adereços !
Imagine-se o que teriam deixado Pessoa, Almada e Camilo se tivessem passado a vida no torvelinho das "coisas importantes" que não deixam rasto.

1 comentário:

Maria disse...

Quanta razão encerram as linhas que escreveu.

Pessoa disse: "É preciso ser-se muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade". Mais: "Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto...". Ou ainda: "E aquela frase de que o 'homem de génio desconhecido' é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo mas o maior dos destinos".

Sobre Portugal escreveu:" O meu sofrimento patriótico, o meu intenso desejo de melhorar a condição de Portugal provoca em mim - como dizer com que calor, com que intensidade, com que sinceridade! - um milhar de planos que, mesmo se um único homem pudesse realizá-los, deveria ter uma característica que em mim é puramente negativa - a força de vontade. Mas eu sofro - juro que até ao próprio limite da loucura - como se fosse capaz de tudo fazer e não o pudesse por deficiência da vontade. O sofrimento é horrível. Mantém-nos constantemente, posso dizê-lo, à beira da loucura. E ainda por cima incompreendido. Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mais intenso do que o de toda a gente que encontro, do que o de toda a gente que conheço".

Parabéns pelos excelentes textos e belas imagens que tem vindo a reproduzir.
Maria