18 agosto 2009

O mobbing está a dar


Este não é um blogue multitudinário. Aqui vêm diariamente duzentas ou trezentas visitas em busca de um Portugal que desapareceu, ou antes, de uma certa ideia de Portugal em eclipse. Lá fora, na blogosfera dita partidária, os ajuntamentos fazem-se todos os dias, com gritos, estribilhos, mensagens anónimas, insultos, remoques, enforcamentos, lapidações e fuzilamentos de carácter. Com uma ou duas excepções, raramente visito os blogues "políticos", pois a política não me interessa. Quando falo em política, refiro-me essa particular forma de reduzir a Cidade à sem-história das caretas e carantonhas que ensombram o quotidiano português e à conta-corrente de pequenas e grandes salafrarias com que Portugal se vai gratuitamente esgotando.
Lembrando Garrett, parece que o regime ainda não compreendeu que o tempo de que dispunha se esvai inapelavelmente e que os grãos que remanescem na ampulheta são os últimos de um longo período que todos nós - os de esquerda como os de direita - malbaratámos, primeiro numa revolução que tudo desfez por princípio e depois se contentou em centuriar lugares, enriquecer escandalosamente os mais vis, os mais imbecis e os menos escrupulosos. O período que atravessamos será, sem dúvida, dos mais apagados, dos mais medíocres e desencantados da nossa história. A inteligência - há-a tão boa nas esquerdas como nas direitas - se não virou as costas e abandonou o país, deixou-se contagiar pela fétida atmosfera com que a imbecilidade se entreteve em mutilar o que de melhor os portugueses possuem. Parece que o regime destes partidos - dos de esquerda, como os de direita - parece fadado para fazer dos portugueses as criaturas azedas e malsãs que enchem a crónica das imposturas deste Portugal Contemporâneo.
Tenho por princípio não fazer reparos de natureza pessoal nem tão pouco dar conselhos. Aqui nunca se desleixou a gramática nem se confundiu o Buarque de Holanda com o Novo Dicionário de Calão. Estou longe, auto-exilei-me porque estava farto do país e já mal podia respirar. O país magoava-me, a maldosa estupidez arrasava-me e condenava-me à reclusão doméstica, a chocarreirice de estrebaria feria-me as narinas e os ouvidos. Ao fim de 33 anos de Portugal, só pensava no aeroporto. Saí e fiz bem, porque cada vez que se avizinha a hora de voltar - mesmo que de férias - passo noites de vigília e tormento.
Desde ontem recebi mais de mil visitas de sarcófilos em busca de carniça podre. Tentando compreender a origem desta algazarra, cheguei à conclusão que tudo não passava de um mal-entendido. O João Gonçalves - voz que sempre respeitei, pois é dos poucos que em Portugal não pede o favor de existir e diz o que pensa, concorde-se ou não com tudo o que diz - fez em tempos uma simpática alusão a um escrito aqui publicado. Anos depois, o texto é desenterrado e exposto como prova forense de um processo de intenções contra o João Gonçalves. No descaminho, envolvem-se insultos ao gosto do Senhor Gil Vicente e cresce a espiral em cornucópia do palavrão que ninguém poupa. Infelizmente, os envolvidos nesta triste altercação blogosférica são, quase todos, gente que considero. Entristece-me que o regime, que nada sabe fazer senão destruir, queira cegar as últimas inteligências que o poderiam salvar nesta 25ª hora.

2 comentários:

João Gonçalves disse...

Miguel, peço desculpa por ter utilizado o link mas era fundamental para "contextualizar" a ópera-buffa. Um abraço amigo.

Nuno Castelo-Branco disse...

Exacto, Miguel. Num país de 10 milhões, que diferença fazem as nossas opiniões, lidas (?) por umas centenas ou dois ou três milhares de pessoas? Há que ver a realidade das coisas. Isto é um passatempo.