26 agosto 2009

Morte na terra dos sorrisos


Uma tragédia que fez manchetes nos jornais locais e internacionais assombrou a felicidade de uma família amiga. Ele, europeu, casado com uma tailandesa. Uma adorável filha de oito anos, que hoje brincava pela câmara ardente fora e teimava em dar largas à exibição de línguas que domina com espantosa proficiência: inglês, thai, alemão e francês. Num velório que se prolongou por quatro dias, centos de amigos e colegas, empresas, embaixadas e até uma representação da família real.
Tocou-me o drama pela simpatia que sempre tiveram para comigo. Gente da alta sociedade, vida confortável, ela oriunda de uma antiga família com vastas propriedades, ele um farang diferente. Amava esta terra e era um homem sólido, carácter afirmativo e muito dedicado à família que aqui fizera. De súbito, na passada sexta-feira, um telefonema que me alarmou: "o U. desapareceu esta manhã". A noite foi de insónia. Uma espera terrível, com presságios que se agigantaram com o passar das horas. Idas à policia, aos hospitais, mas nada. Por fim, já a manhã se fizera, o lacónico, quase brutal, telefonema da polícia: "o carro foi encontrado e um corpo aguarda identificação". Mais não digo, pois o jornalismo sem escrúpulos já criou uma rábula que vai crescendo dia-a-dia.


Interessou-me, sobretudo, a atitude da mulher e da criança. Lágrimas ouve, concerteza, mas lágrimas de resignação, com sorrisos evocativos daquele pai dedicado e daquele marido que tratava a mulher como se de uma namorada se tratasse. A felicidade tem sempre um fim - dizem os tailandeses - e nada há neste mundo que não seja passageiro. O U. partiu e já não volta, disse-me um amigo. "Acabei de lhe falar e está bem". Serve-se uma sopa aos participantes, chegam coroas e mais coroas de flores. Os monges desfiam um mantra, os assistentes levantam-se e um a um plantam numa jarra um pau de incenso que a filha, sorridente, vai acendendo.


A morte não é, como no Ocidente, essa coisa imunda e terrível. Aqui come-se, as pessoas sorriem, dão as mãos umas às outras fazendo comentários judiciosos sobre a libertação do espírito e até há fotógrafos de serviço cobrindo a cerimónia. Os participantes receberão a sua foto. Aqui também há albúns de fotografias sobre cerimónias fúnebres. A morte não é nem um começo nem um fim, é uma necessidade biológica e espiritual, dizia um médico meu amigo. "Quando partimos não sabemos se voltamos. Se voltamos, isso quer dizer que ainda não estamos preparados para a espiritualidade pura, ou seja, para o nada".

Há um ano, o João Azeredo, o nosso leitor de português, morreu aqui em Banguecoque. Lastimei-lhe a sorte. Enganei-me. A morte no Sião é coisa aconchegante, com acenos de mão em despedida enquanto a luminosa boca do forno crematório se abre para envolver o corpo. No fim, as pessoas abandonam e deixam à famíla um envelope com aquilo que cada um pode oferecer para pagar as exéquias. No fundo, uma última prenda ao amigo que partiu. Eu também gostaria de morrer no Sião.
Miguel Castelo Branco

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas afinal, o que aconteceu ao homem?

adsensum disse...

Acredito que, como diz, se trate de uma cerimónia emotiva mas serena e algo envolvente.