25 agosto 2009

A ilógica das coisas


O desvio do avião da El Al para Entebe em 1976, resgatado temerariamente por um comando do Mossad, foi um acto terrorista; o desvio do Santa Maria, não !

As eleições no Irão foram fraudulentas, mas as eleições no Afeganistão foram, no parecer de Washington, "manipuladas mas tendencialmente justas".

A libertação do terrorista líbio pelas autoridades escocesas foi um acto de clemência induzido pela piedade que o doente terminal inspirou aos salomónicos juízes; o confinamento do canceroso octagenário Demjanjuk a uma cela é um acto de justiça ante um crime imprescritível.

A caricatura de João Paulo II com um preservativo enfiado no nariz foi entendido e aclamado como uma saudável provocação; uma caricatura de Maomé é tido como insulto aos muçulmanos e acicate para a xenofobia.
Portugal foi consecutivamente advertido e punido nas Nações Unidas por desenvolver operações militares em países circunvizinhos das suas possessões ultramarinas que davam abrigo a movimentos armados; os EUA nunca foram sancionados pelo bombardeamento indiscriminado do Camboja neutral.

O levantamento republicano de 1910, executado por um partido com 5% dos assentos parlamentares, é comemorado como um feito histórico; os monárquicos que colocam uma bandeira na CML são ameaçados com duras penas de prisão.
A reparação de Mellos e Champalimauds pelas vergonhas do PREC foi encarada como necessária ao restabelecimento da confiança dos cidadãos no Estado; a reparação dos portugueses ultramarinos é uma impossibilidade perante um facto histórico irreversível.
A intriga diplomática não se cansa de lembrar ao actual Primeiro Ministro tailandês que a sua chegada ao poder não surgiu de eleições, mas de um arranjo parlamentar destinado a marginalizar Thaksin, mas os mesmos diplomatas nunca fizeram o mais pequeno reparo a essas fantásticas democracias que são o Vietname o e o Laos.
Enquanto nos divertimos em jogos florentinos, vai-se perdendo, milímetro a milímetro, a respeitabilidade que nós, ocidentais, invocamos para dar lições de moral ao mundo.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Olha, a minha paciência está a chegar ao fim. Basta de silêncios que comprometem e envergonham. À provocação e ao insulto, temos a obrigação de fulminar com sonora chapada. Basta!

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

E a maioria, mesmo que consciente destas contradições, ainda acredita que é possível lutar contra a força bruta somente com a palavra. Não é por acaso as nações opressoras desarmam os seus cidadãos e as nações fracas se desarmam diante das poderosas.
A ervinha tem feito um dano terrível no mundo ocidental.

Caro Nuno,

Estou de acordo consigo. Ninguém deve se acovardar diante da maioria se disser a verdade, mas falta testosterona. O velho Charles Bronson nunca diria que dois mais dois são cinco, mas ele já não é exemplo. Hoje em dia os putos são "emos"(os manuais soviéticos de subversão explicam como fazer isso).

Nuno Castelo-Branco disse...

Falta a testosterona? Peçam ao médico que lhes receite Primobolan! :)

Manuel Pinto de Rezende disse...

são estes textos que me fazem gostar de parar por aqui.

concordo consigo.