04 agosto 2009

Da Cabeça e dos pés siameses

O carrapito thai - หัวจุก/hua jùk ou "tampo da cabeça", tufo em forma de crista arredondada no cocuruto da cabeça - era o corte de cabelo que exibiam homens, mulheres e crianças no velho Sião. Quando os jovens entravam para o templo para receberem a ordenação, realizava-se a tonsura, símbolo do renascimento, mas também do despojamento.

A explicação que os thais encontram para tal corte de cabelo é matéria de discussão, pois se para uns servia para ornamentar a cabeça - amiúde o tufo era abraçado por uma argola em ouro, prata ou bronze - para outros serviria para assinalar e proteger a parte mais nobre do corpo, pois para os siameses o osso parietal é considerado região sagrada e intocável. Tocar na cabeça de uma pessoa é tão impensável como tocar-lhe nos pés - um absoluto don't - pois se a cabeça significa proximidade com o sagrado, os pés são a mais baixa, impura e infamante expressão da animalidade.
Indignados com o à-vontade com que os Farang (estrangeiros europeus) tocam os objectos com os pés, deles se servindo até para apontar, os thais chamam aos pés นิ้วฝรั่ง = Níu Farang, ou seja, "dedos/maõs de europeu", deliciosa expressão que, tivesse equivalente na Europa a respeito de outros povos, teria de imediato à solta uma puritana lei anti-xenofóbica.

Daí que a titulatura real - Prabat Somdet Prajáo Yú Hua, literalmente, "Excelsos pés que repousam sobre a minha cabeça" - não só exprima o lugar que o Rei ocupa na hierarquia dos homens, como também a única relação física que aos comuns é possível manter com a pessoa do Rei. Sendo o Rei um avatar de Vishnu, as petições que os súbditos enviavam ao Rei eram precedidas pelas significativas fórmulas introdutórias "eu, que não mais mereço que a poeira dos pés de V. Majestade", "eu, que sou indigno de tocar nos pés sagrados de Vossa Majestade".



O tempo passou, o hua jùk desapareceu como pragamática de identificação, mas como em tudo, as coisas mudam absolutamente para que tudo ficasse na mesma. As crianças e jovens em idade escolar - até aos 17 anos - continuam a exibir o cabelo rapado nas têmporas e occipital, vestígio do velho jùk e as crianças de tenra idade - até aos 5 anos de idade - são exuberante catálogo da arte e amor que os pais investem nas cabeças dos pequenos príncipes.



กรกฎาคม

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Por acaso, sempre gostei de os ver assim, exibindo a sua tradição, mesmo que usando uma t-shirt e umas Levi's.