28 agosto 2009

Centenário da República

Talvez o mais exuberante símbolo republicano: a camioneta fantasma do Cabo Olímpio

Há quem repita ad nauseam que na monarquia liberal havia pulsões autoritárias. Havia-as, é certo, mas tão contidas pela moldura da Carta e pela existência de uma chefia de Estado dinástica que tais derivas autoritárias se limitavam a assumir a figura de "ditaduras comissariais", períodos de suspenção da actividade parlamentar. Ora, a República, aproveitou-se dessa figura e exerceu o poder ao arrepio das leis que ela própria promulgara. De 1911 a 1923, ou seja, oitenta por cento da sua existência, deixou de haver a tão aclamada fórmula canónica dos regimes de liberdade que desde o século XVIII são sinónimos de regimes com "separação de poderes". Durante a República não houve, de facto, separação de poderes. Se estes estavam inscritos na Constituição, foram sucessivamente neutralizados pela governação expedita dos hierarcas agora festejados. A nomeação de juízes pelo governo, a existência de presos políticos (e de cárceres privados), o afastamento de chefes de Estado pelo governo, a censura e o poder da tropa, primeiro, e depois da Guarda republicana, são sobejas como eloquentes provas da ilegalidade permanente em que viveu essa mitificada República.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Aos poucos, a mística vai desaparecendo. Se o hastear da bandeira na CML serviu para alguma coisa, isso foi, sem dúvida, o fim do invisível cartaz a dizer "proibido" que lá se encontrava desde 1910. Acabou. de vez!

AB disse...

Em 100 anos de república nunca houve a mínima vontade de restaurar a monarquia, nunca houve um movimento minimamente credível e com forte apoio popular,nunca houve mais que breves bravatas apoiadas por meia dúzia de excêntricos (a bandeira na CML é apenas o último exemplo, aliás bem engraçado). Em sondagens que se têm feito, as pessoas a favor de uma restauração da monarquia são uma insignificante minoria. Caramba! Isso há-de querer dizer alguma coisa. Ou não? Concedo que é muito mais bonito começar uma história por "Era uma vez uma princesa..." do que "Era uma vez a filha do Presidente da República..." mas não chega isso para mudarmos o regime, parece-me. Enfim, é giro ter assim uma causa, uma quimera, um sonho... Outra coisa é de facto as mentiras que se têm repetido à exaustão sobre o regime monárquico constitucional e que o Miguel tem, com toda a razão embora com um estilo que por vezes me parece desajustado por demasiado truculento,desmascarado e denunciado. Isto para já não falar na vergonha e na guerra civil permanente ou latente que foi a primeira república. Mas como o Miguel também sabe, a história é sempre feita pelos vencedores.

João Amorim disse...

Caro AB

Olhe que não sei! Dêm tempo e expressão aos monárquicos e não faltará tinta nos jornais e dedos borrados nos teclados. O problema é que este regime não permite tal liberdade, como sabe! Quanto ao seu apontamento das estórias de "encantar", não é só por devir sociológico que as historinhas para a infância começam assim... é por uma questão afectiva. Um Rei é um factor de património afectivo, de pertença de união entre o que foi e o que virá. Seja em republicas ou monarquias, todas as crianças percebem a dimensão que tem o "Era uma vez ...".

AB disse...

Caro João Amorim,

em relação ao que diz sobre a liberdade de expressão dos monárquicos, sinceramente não compreendo. Não vejo, nem nunca vi, que fosse cerceada a palavra e a liberdade aos monárquicos de dizerem seja o que for. E então agora com a internet, os blogs etc, muito menos vejo que isso aconteça. Subsiste o facto indesmentível que não há nem nunca houve um movimento verdadeiramente popular pela restauração da monarquia, pelo que só posso concluir que as pessoas se sentem bem com a república, uma vez que não a põem em causa. Essas queixas do monárquicos de que não podem falar, não lhes dão atenção, etc, para mim não passam de fantasias. Se não lhes dão atenção, não será antes pelo facto de a grande maioria das pessoas ver a restauração da monarquia como coisa estapafúrdia e incompreensível?

Quanto ao "era uma vez..", a minha questão não era uma análise das estruturas antropológicas das histórias de infância, facto alias já profusa e profundamente estudado. O que eu queria dizer é que a única coisa em que vejo as pessoas se reverem na monarquia é precisamente no lado de fantasia e sonho da mesma. Daí aliás a popularidade do Sr. Dom Duarte e dos diversos actos em que participa todos os anos.

Concordo com o factor afectivo que atribui à figura de um rei e daí advém, penso eu, também muita da popularidade da nossa "família real". Mas pelos vistos isso não chega para que as pessoas queiram mudar o regime.

Cumprimentos