31 agosto 2009

As mãos sujas



Como aqui insinuáramos há dias, a libertação do terrorista líbio pelo governo britânico inscreve-se num pacote negocial que abre as portas dos campos petrolíferos líbios à BP. Quando os negócios ou a mira de receitas comandam a política externa, derrogam-se todas as considerações, rasgam-se as grandes cartas, pisoteam-se os princípios, engana-se amigos e aliados. A interferência dos lóbis plutocráticos na política externa do Reino Unido não é coisa nova. Foi em nome da liberdade comercial que o lóbi narcotraficante londrino desencadeou a chamada Primeira Guerra do Ópio (1839-1842) e, logo escancarados os portos chineses às investidas dos tratantes, se fez a Segunda Guerra Anglo-Birmanesa (1852) para implantar na Birmânia a produção industrial da papoila necessária ao mercado chinês. Foi em nome do diálogo este-oeste que o governo britânico humilhou a Rainha Isabel II, forçando-a a conviver com Nicolae Ceausescu durante a visita que o déspota comunista realizou ao Reino Unido em 1978 e investindo-o Cavaleiro da Ordem do Banho. A visita escondia, afinal, o suposto interesse da Roménia em adquirir aviões britânicos, negócio que jamais se realizou, pois o tirano propôs a troca de aparelhos pelos excedentes da produção romena de batatas.

Fala-se muito de diplomacia comercial. Essa diplomacia não existe e não passa de cosmética ordinária para realizar negócios que não servem os interesses permanentes dos Estados, mas apenas interesses empresariais. Se repousasse nas mãos de tal gente a política externa ocidental, há muito que o Irão, a Coreia do Norte e o Sudão possuiriam as tais armas de destruição massiva. A única diplomacia - a cultura diplomática fundada no serviço do Estado - não pode ser confundida com negociatas de vinho a martelo, botas em segunda mão e armamento obsoleto. Os chamados "homens de negócios" encaram a política internacional como os piratas: o máximo lucro, o mínimo de escrúpulos. Li há dias que a grande aposta de alguns sectores empresariais portugueses na Ásia é o reforço das relações diplomáticas com Singapura, a Indonésia e Malásia, o mesmo quer dizer petróleo, bancos e borracha. De fora ficaria, apenas, a Tailândia, coisa insignificante e de somenos. O que são 500 anos de relações ? Para que serve a História ? O que interessa é fazer dinheiro. Espero que os decisores cultos, informados e atentos não aceitem essa troca, pois se os negócios passam, uma ofensa a um Estado amigo não é coisa que se repare com facilidade.

2 comentários:

NanBanJin disse...

Uma vez mais, estamos em perfeita sintonia de pontos de vista nesta, como noutras matérias.

Nuno Castelo-Branco disse...

Vou ver se dou uma vista de olhos e tiro do meu arsenal um canhão de longo alcance. Para corroborar o teu post e dizer umas verdadezinhas chatas.