21 julho 2009

Somos, de facto, um grande povo


Tenho recebido dezenas de emails a propósito das pequenas crónicas que aqui vou publicando sobre as comunidades luso-descendentes do Sudeste-Asiático. Do Vaticano, acabo de receber tocante mensagem de um jovem sacerdote de trinta anos, italiano de nascimento mas "português do coração" (sic) que se excede em imerecidos elogios a esta tribuna, que só aceito por nas suas palavras encontrar o reconhecimento da Igreja pelo esforço quase inumano deste pequeno povo que foi - e é - o maior entre os pequenos povos do Ocidente. Da Alemanha, um pequeno texto, da mão de um arquitecto que "aprendeu a falar português após ter visitado Goa, pois quem fez aquela cidade e a manteve durante meio milénio merece ser conhecido".


Com efeito - as estatísticas não mentem - Portugal realizou o impossível: sobreviveu quase um milénio no escalvado e quase improdutivo canto extremo ocidental da Europa, construiu o Brasil numa dimensão quase continental, resistiu à corrida ao continente africano e aí deixou cinco estados, manteve-se na Ásia até ao limiar do terceiro milénio, arrancou a ferros Timor dos braços da Indonésia muçulmana. Os povos revelam-se na adversidade. A grandeza de Portugal só se revelou quando se finaram as grandes gestas náuticas, as retumbantes vitórias militares e a riqueza da casas da Mina e da Índia. Quando o Império iniciou o seu ocaso, não foram nem os príncipes nem os eclesiásticos purpurados que mantiveram a vida nos Concelhos, que animaram os hospitais e as Misericórdias, que reuniram fazendas e sangue para refazer os panos de muralha. Até mesmo quando o inimigo sobre nós triunfou e quando por cavalheirismo de guerra permitiu que os Homens Bons reunissem família e pecúlio e zarpassem para terras portuguesas, nos mais pequenos rincões ficaram os pobres aos quais coube resistir silenciosa e teimosamente.


Resistir parece ser o segredo da longevidade portuguesa. Mal governados - por vezes, até, governados por irresponsáveis criminosos - os portugueses souberam transformar as mais clamorosas derrotas em vitórias testemunhais. Como aqui disse há tempos, somos um pouco como os judeus: quanto mais nos reduzem, nos esquecem e desprezam, há uma não sei que força misteriosa que nos impele a continuar, a ficar e deixar marca. Pessoas há que no transcurso das suas vidas mudaram três vezes de terra, só para se manterem em terra portuguesa. Aqui lembro, uma vez mais, os goeses. Abandonaram Goa em 1961, saltaram o Índico e estabeleceram-se em Moçambique. Em 1975, novamente fizeram as malas e aportaram a Lisboa. Caramba, que outro povo é capaz de se sacrificar a tal ponto ?


Recebo, feliz, a notícia da candidatura de um português à presidência da Argentina. Mário das Neves é um desses homens que encontramos aos centos ao longo da história ultramarina portuguesa. De origem humilde, nascido em terra distante, parecia condenado ao enclave social, mas eis que subiu a pulso, venceu eleição após eleição, tornou-se estimado pela probidade e intransigência perante a corrupção, quiçá o maior flagelo da América dita latina mas que é, só o pode ser, América Ibérica, pois os italianos não a descobriram, não a edificaram e dela parece só terem tirado vantagem. É uma lição para todos. Vencer é uma questão de teimosia e vontade !

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Uma pena, os "intelectos" que por cá andam, sempre a tentar fazer de conta que são estrangeiros. Nem percebem que ainda são mais desprezados por isso mesmo. Imbecis! Realmente, a preservação de Portugal parce estar reservada aos teimosos monárquicos. Irá o tempo dar razão ao que dizemos?

entremares disse...

Decidi-me, finalmente.
O que escreveu neste post, e principalmente a postura com que o escreveu, merecem-me algumas palavras – poucas – não para contrariar aquilo que diz, e que subscrevo na integra, mas tão só para acrescentar um ou dois pequenos pormenores, sobre os quais apreciaria bastante conhecer a sua opinião.
Somos um povo de contradições, de contrasensos, de extremos.
De um modo ingénuo – juvenil, mesmo – conquistámos a independência, criámos um reino. De uma forma igualmente ingénua, a perdemos novamente para Espanha.
Assinalámos grandes feitos marítimos, é certo. Quantos deles “ em cima do joelho”, graças à nossa fantástica capacidade de improvisar?
Somos uma raça que improvisa como ninguém, que do nada consegue construir tudo o que lhe seja pedido, um povo que se emociona facilmente, solidário, fácilmente enganado.
Já fomos o cordeiro para as invasões francesas, o aliado infantil no mapa cor-de-rosa africano, os fugitivos nas descolonizações exemplares. Já nos ofereceram e exigiram de volta Macau. Já nos expulsaram da India, de Timor, de Angola, de Moçambique, das ilhas atlânticas. Já conquistámos e já fomos conquistados.
Mas, enquanto pessoas, somos um povo sem igual.
Não somos racistas, mesmo que nos acusem de tal.
Não somos bem governados, mas conseguimos auto-governar-nos.
Já inventámos a economia paralela, já emigrámos e imigrámos, até já conseguimos um Nobel.
Responderão a isto os mais cépticos alegando que nunca ganharemos o festival da eurovisão.

Onde pretendo chegar?
Quando li o seu texto, percebi um certo orgulho nas entrelinhas.
Queria simplesmente transmitir-lhe a ideia de que não é o único a sentir isso.
Quase sempre fomos mal governados.
Irónicamente, a democracia presente permite que a mediocridade se destaque, não por mérito, mas simplesmente porque em terra de cegos, quem tem um olho é rei. E, nesta terra de cegos em que vivemos hoje, o “chico-espertinho” é, per si, um diploma.
Irónicamente, dizia eu, porque o incutir do tal orgulho nacional coincidiu históricamente com um período da nossa história menos democrático.
Para finalizar, só recordar uma frase de um poliitico – deste e do anterior regime -certamente seu conhecido, e que diz assim, no prefácio de um livro que escreveu.

“ A Pátria não se escolhe. Acontece.”

Os meus cumprimentos.
Rolando Palma

Pedro Leite Ribeiro disse...

Só mesmo a usual clarividência de V. Excia. para nos alertar para uma verdade que sempre esteve debaixo dos nossos olhos mas que na qual muitos de nós nunca havíamos pensado: deve ser América Ibérica e não Latina. Penso que se pode juntar os franceses e os romenos aos italianos. A partir de agora, sempre que me referir a esse continente, será desta maneira que acabo de aprender aqui (sim, porque aqui, neste blogue, aprende-se).