19 julho 2009

Na aldeia portuguesa de Banguecoque


O convite veio há dias: "queremos que cá venha no próximo domingo para falarmos sobre os portugueses que aqui vivem há mais de duzentos anos". No trabalho de investigação que realizo em Banguecoque desde finais de 2007, tenho lido e folheado muitos milhares de páginas de livros e jornais, muitos documentos manuscritos e mapas existente em bibliotecas e arquivos, mas raramente se proporciona ter acesso às pessoas que hoje representam a comunidade luso-descendente que subsiste na Tailândia. Encontro-os esporadicamente e com eles troco impressões em iniciativas promovidas pela nossa embaixada ou pelas autoridades que neste país respondem pela cultura. Em jantares, convívios e espectáculos por ocasião do 10 de Junho, em conferências ou até em visitas ao parque arqueológico de Ayuthia (antiga capital) tenho sempre o prazer de encontrar os líderes dessa comunidade resistente que obstinadamente se mantém neste outro lado do mundo.


Percorro as vielas da aldeia - terreno inalienável da Igreja - e vou deparando a cada passo com marcas dessa afirmação de soberania católica. Em cada casa, orgulhosos e públicos, o nome da família que a habita e um crucifixo. Flores à janela, azulejos, um rosário pendendo na porta assinalam que ali há um eco do Portugal distante. É um velho mundo, um bandel em plena capital da Tailândia. Ali respira-se um catolicismo militante. Toda a comunidade, estimada em 3000 pessoas distribuídas por 130 famílias, vive para si, casa entre si, transmite memórias e mitos familiares.
É com incontida satisfação que dizem "bão dia, como está ?" e me mostram a escola dirigida pelos padres da paróquia. Ali estudam centenas de miúdos e, caso raro num país em que quase 90% da população é budista, na Escola da Conceição 70% dos alunos são católicos e são Fonsecas, Costas, Cruzes, filhos, netos, bisnetos e tetranetos de Rosas, Marias, Jesus, Antónios e Josés. No auge do fascismo tailandês, em finais da década de 30 e durante a guerra, foram particularmente visados pela repressão do governo de Phibun Songkram. Perderam o direito aos nomes de família, aos nomes cristãos, às procissões e festividades. Porém, se o bilhete de identidade lhes fixava nomes thais, continuavam a charmar-se entre portas pelos nomes de baptismo.

Estes são os luso-siameses de hoje. Ao contrário do que aconteceu nas restantes lusotopias do Sudeste-Asiático, onde as populações de ascedência portuguesa sofreram declínio acentuado, graças à acção convergente dos regimes coloniais britânico (Birmânia) e francês (Camboja), mas também - importa dizê-lo sem rebuço - de muita incompreensão e repetidas tentativas do clero francês e italiano para erradicar a lembrança das raízes portuguesas, na Tailândia os luso-descendentes mantêm dignidade social e profissional. Encontro um médico, um oficial da armada, um professor universitário e um botânico. Na sua maioria evitam os negócios, essa especialização em fazer dinheiro; logo, suspeita aos olhos de pessoas como estas. Gente servidora do Estado, trabalha maioritariamente nos ministérios, lembrando o tempo em que eram funcionários do Rei e especialistas no quadro do "feudalismo siamês" que aqui dava pelo nome de Sakdina. Ontem como hoje falta-lhes a abastança, mas reconhece-lhes no tom, na educação e na atitude um longo historial familiar.


Uma hoalang vietamita e um luso-siamês

Tinham-me pedido uma curta palestra. Mas o que dizer a pessoas que sabem mais que eu ? Estas pedras vivas falam com naturalidade de um bisavô diplomata, de um tetravô general, de um remoto antepassado que fora servidor no palácio. Por eles passou, durante muitas décadas, a intermediação entre os europeus que aqui chegavam e as autoridades. Foram intérpretes, responsáveis portuários, comandantes da marinha, remadores das barcas reais, secretários do Rei e do Uparat (o segundo Rei), serviram o Phraklang (equivalente a ministro do comércio) e, depois, com o advento do Estado Moderno e burocrático, sobreviveram graças à inteligência, lealdade à coroa e reputação impoluta. Limitei-me - ver aqui - uma palestra de uma hora sobre generalidades que com simpatia foi escutada. Depois, uma longa conversa sobre coisas comuns. À cabeça, naturalmente, Portugal.

A aldeia católica encontra-se dividida em duas paróquias: a de S. Francisco Xavier, habitada por "vietnamitas" aqui chegados durante as duras perseguições anti-católicas da dinastia Nguyen contra os hoalang e a paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Na paróquia, a fachada fluvial é habitada por luso-siameses e nas traseiras da igreja vivem os luso-cambojanos. O bairro foi, durante muito tempo conhecido por Ban Khamen (Aldeia Khmér), mas os dois grupos miscigenaram-se e hoje dessa separação étnica subsiste apenas na diferenciação dos espaços - estar perto do rio, estar longe do rio - e no tom de pele mais escuro próprio de alguns "luso-cambojanos".
Passamos pela igreja. A missa das quatro da tarde terminara e os padres preparavam-se para rezar a missa das cinco. O pároco ofereceu-me uma medalha com uma Nossa Senhora da Conceição. No interior da igreja, uma trintena de fiéis aguardava o início do serviço litúrgico. Um idoso sentado numa cadeira de rodas disse-me ter oitenta e seis anos. Desfiava as contas de um rosário de vidro verde e ostentava uma dignidade senhorial que me impressionou. Lembrei-me de um velho amigo dos meus pais, o Senhor Fonseca, goês que abandonou Goa por Lourenço Marques em 1961, pois queria morrer português em terra portuguesa. Ontem como hoje, o espírito de resistência do velho Oriente tornado português.

Boaventura Ruansaman Maytrirak, que foi embaixador do Sião em Roma

Seguimos para o cemitério. Está superlotado e, agora, com um sorriso os meus anfitriões dizem-me só ser possível ali conseguir a última morada nos "condomínios", ou seja, nos gavetões. Desfiam o parentesco de todos os que ali repousam o sono eterno.

António da Cruz, que morreu no dia 11 de Outubro de 1899

António da Costa (1879-1965)

Um Francisco, oficial da Real Força Aérea da Tailândia

Seis da tarde. Não dera pela passagem do tempo. Um café, bolinhos e a marcante gentileza do líder da comunidade em acompanhar-me até ao limite da aldeia. Para este passeio levei comigo um amigo francês, que compreende bem o que isto significa, pois é francês nascido na Argélia, como eu sou português nascido em Moçambique. No autocarro que me trouxe ao centro disse-me: "que gente tão amável. Note-se: vivem no seu mundo e não noutro mundo". Não pude dizer mais nada. Eles vivem no seu pedaço de Portugal. Se eu mandasse, dava-lhes de imediato a cidadania portuguesa.

5 comentários:

Stalker disse...

Uma breve nota para lhe agradecer estes relatos. São muito mais importantes do que porventura pensa.

João Pedro disse...

Interessantíssimo e tocante, este testemunho do Miguel entre a comunidade luso-siamesa e luso-cambojana. Não fosse isto e nunca imaginaria haver estas comunidades no Sudoeste asiático.Assim vamos conhecendo o rasto de Portugal pelo mundo, e descobrindo que tanto do que andámos a ensinar e a espalhar se mantém orgulhosamente vivo.

Nuno Castelo-Branco disse...

SE tu mandasses, aqui está o problema. SE tu mandasses, este país era outro!*


* O sr. Fonseca ainda vive. está velhote, mas bem. Vive em Cascais.

Alice disse...

Pelo novo visual que apresentas, passaste a ser budista?

Euro-Ultramarino disse...

Caro Amigo,
Sempre que leio o que escreve sobre esses fantásticos luso-siameses os olhos humedecem... Vivem no seu mundo, com o sentimento vivo das origens e do passado, no culto à Pátria de sempre. Para Portugal melhor teria sido ficar sem metrópole e conservar o Ultramar - as terras dos verdadeiros portugueses.
Um abraço.