24 julho 2009

Cascatas de areia e a poeira dos "intellos"


O tema da conferência-debate que me levou ao departamento de estudos europeus de uma universidade de Banguecoque era duplamente interessante. Propunham os organizadores discutir a construção do Estado-nação na "Ásia das Monções" pós-colonial e lembrar que o modelo europeu se edificara sobre uma politéia [pré-moderna, budista, patrimonial] que cobrira o amplo arco geográfico que começa no Bramaputra (Índia), transpõe o Irrawadi (Birmânia) e o Chao Phraya (Tailândia) e termina no Talé Sap (Camboja), naquilo a que vulgarmente se chama o Sudeste-Asiático indianizado.


Porém, as expectativas saíram goradas. Na mesa, três intellos vindos da Europa, dois apresentados como "especialistas" em estudos "pós-coloniais", o terceiro como "antropólogo cultural" e "especialista" em questões relacionadas com "mudanças epistemológicas" (sic). Depois, foram três longos monólogos carregados de citações de Foucault, Habermas, Rorty, Kellogg Lewis e até do Vattimo, mais "desconstruções", "gramatologias", teologias negativas", "técnicas narrativas e metanarrativas" e "intertextualidades".


Quando um dos assistentes pediu a palavra - curta e modesta como é apanágio dos thais - formulou uma questão que em si transportava aquilo que poderia ter sido a conferência: "a meu ver, estamos em presença de um conhecimento antigo [pré-colonial] que foi posto de parte pelos colonizadores, que edificaram um conhecimento novo [europeu] que se instalou num terreno que não era virgem; logo, os Estados hoje existentes, aparentemente "modernos" são o resultado dessa síntese em que se vê muito do que os europeus deixaram - leis, constituições, modelos de organização - mas sente-se a cada passo a interferência do passado". Para ilustrar a curta intervenção, o tailandês fez uma referência a Mongkut (Rama IV), o rei siamês que aqui iniciou a ocidentalização. Um dos intellos, retirou os óculos, naquela posse de doutor em tudo, apoiou a mão no queixo - outro tique intelo - e perguntou: pode explicitar ? Mongkut ? Quem era Mongkut ? Eu dei uma gargalhada e saí da sala. Uma coisa destas, na Tailândia, é o equivalente a ir a Niágara e não saber que ali existem as cataratas !



Ao chegar a casa, chamei o Ud, filho da empregada que aqui vem duas vezes por semana. Disse-lhe: "óh Ud, o que pensas de Derrida, de Sarte, Barthes, Deleuze e Jean Baudrillard ?". Não respondeu e fez a expressão que registo; ou seja, a mesma dos tailandeses que foram à procura de respostas e regressaram a casa absolutamente elucidados sobre a arrogância, o autismo e o mar de areia que vai na cabeça da pedanteria ocidental nos tempos que correm.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Não vás mais longe. pergunta ao Cavaco quem escreveu o Portugal Contemporâneo. Ainda é capaz de dizer que ... "acho que foi a minha mulher"...

Bic Laranja disse...

Esta civilização cá anda balofa de tanta 'visão do outro', ah! ah! ah!
Cumpts.